Atualmente, percebe-se que, com o avanço da tecnologia e com os recursos de comunicação cada vez mais velozes, os registros de escrita à mão estão progressivamente mais distantes das pessoas, principalmente dos jovens, que já não mantêm o hábito da escrita manual, em especial pelo não uso de suportes — papel e caneta — como forma de comunicação. Diante de um cenário cada vez mais tecnológico e instantâneo, a escrita à mão passou a ser deixada de lado em função da rapidez com que se envia e se recebe uma mensagem. Soma-se a isso a velocidade dessa escrita, geralmente abreviada, que cria novos códigos de comunicação, comprometendo a ortografia correta das palavras.
Nesse contexto, o cérebro passa a não ser devidamente estimulado quanto à percepção visual, ao processamento motor fino e aos estímulos relacionados à memorização, ao reconhecimento de letras e ao desenvolvimento da leitura.
Ao escrevermos à mão, estimulamos a retenção de informações, o foco de atenção, o controle inibitório e a organização do pensamento e da linguagem, o que não ocorre da mesma forma quando digitamos. Pessoas que praticam esse tipo de escrita apresentam melhor desempenho em leitura, interpretação e na produção de registros mais reflexivos.
Há pesquisas desenvolvidas na área que indicam que o movimento livre da escrita promove associações livres e múltiplas conexões. Além disso, reduz o estresse, aumenta a capacidade de reflexão, melhora a autorregulação emocional e favorece estados de atenção, funcionando como um ritmo corporal que acalma o sistema nervoso. Para Umberto Eco, a escrita manual nos força a um processo cognitivo mais profundo, pois escrever à mão nos obriga a “compor a frase mentalmente antes de escrevê-la” e, graças à resistência da caneta e do papel, leva-nos a desacelerar e a pensar.
O ato de escrever exige reflexão, uma parada para síntese a partir de uma organização interna, o que reforça a memória de longo prazo. A criatividade também se manifesta durante a escrita à mão. A pausa no ato de pensar, o ritmo da escrita e o controle do pensamento favorecem a memória e a reflexão sobre as leituras realizadas.
Cabe ressaltar que, para a neurociência, escrever à mão beneficia corpo, emoção e cognição, pois memória, atenção e criatividade caminham juntas, deixando claro que, mesmo na era digital, a escrita à mão deve ser preservada, em benefício da saúde mental e do desenvolvimento cerebral.
A escrita nos ajuda a transformar pensamentos em palavras, a comunicar-nos com clareza e a fortalecer o senso crítico e criativo, levando-nos a acessar novos mundos, novas visões e a ampliar nosso repertório cultural e social.
É necessário retomar a escrita à mão como algo prazeroso, buscando resgatar a importância da pausa para pensar, estimulando a produção de uma escrita coerente, potente, crítica e criativa.