Para o médico Giovanni Di Sarno, “administrar com dinheiro é fácil, o segredo é administrar sem recurso”
Leidiane Sabino
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A Santa Casa de Votuporanga iniciou na quinta-feira, às 19h, o seu Planejamento Estratégico para 2012 e os próximos anos, com o objetivo de consolidar e melhorar o seu desenvolvimento e ainda tornar-se uma unidade sustentável, sem depender exclusivamente de recursos políticos.
O administrador do hospital, Mário César Homsi Bernardes, disse que foram analisadas diversas situações para o início deste planejamento. Todo o material será compartilhado e utilizado para traçar os próximos passos da Santa Casa. “Tenho muito orgulho de participar deste momento, com o envolvimento de todos vocês. Passamos por um momento difícil e delicado, mas não impossível de ser minimizado. Pretendemos fazer uma Santa Casa sustentável e independente de recursos políticos”, disse.
A situação financeira difícil da Santa Casa também foi ressaltada pelo provedor Luiz Fernando Góes Liévana. “Em três anos como provedor, nunca vi uma situação como a atual. A gente vê a Santa Casa refém dos governantes e as emendas federais não chegam desde 2009. O Governo do Estado também nos manda e um lado para o outro e não conseguimos nada. A gente precisa ficar fazendo eventos e promoções para conseguir recursos. Temos deputados atuantes na cidade, mas que não sabem mais o que fazer. Porém, não podemos desistir, vamos fazer o de sempre, um bom atendimento”.
O presidente do Conselho Administrativo, Nasser Gorayb, disse que planejamento faz o trabalho funcionar melhor e também citou a falta de recebimento de recursos. “Me sinto orgulhoso quando vejo pessoas de outros estados utilizando os nossos leitos, mas, ao mesmo tempo, tenho vergonha de saber que o governo não faz a sua parte. Estão aqui por que não tem estrutura em suas cidades”, falou. Para Nasser, a Santa Casa precisa ser uma empresa respeitada e sustentável. “Vamos planejar para que, se Deus quiser, a gente não dependa mais do governo”.
A Secretária de Saúde do município, Fabiana Parma, também esteve no lançamento do programa. Ela disse que mesmo sendo otimista demais, não consegue ver com entusiasmo a atual Política Nacional de Saúde. “Admiro muito o SUS (Sistema Único de Saúde), ele foi criado para dar certo, mas novos recursos não são disponibilizados, não chegam”.
Fabiana explicou que, dentro das redes temáticas montadas pelo Governo Federal, os programas e recursos estão sendo enviados para locais com índices negativos de saúde. Ficando para trás os municípios com índices melhores. “Até o momento não fomos contemplados com nenhuma rede. Eu acredito que isso ainda acontecerá. Para os otimistas, talvez a gente ainda consiga algum desses recursos”.
Com a necessidade de investir em Atenção Básica, a Prefeitura repassa em média R$1 milhão por ano ao hospital.
O médico Fabiano Gradela Leoni, representante do corpo clínico da Santa Casa, disse que fazer planejamento é algo muito novo para médicos. “Mas não dá para ficar alheio a tudo isso. Visitar o paciente, virar as costas e ir embora. Se o médico não fizer a parte dele, a gente não vai a lugar algum". Ele disse ainda que há quatro anos a Santa Casa era visitada por muitos políticos. “Hoje, eles não vêm mais, prova de que os recursos são estão chegando aqui. Estou preocupado, meus colegas estão preocupados”.
O médico especialista em saúde pública Giovanni Di Sarno, consultor da Santa Casa na criação do seu planejamento, ressaltou que falta de recursos no serviço público é algo permanente e um problema nacional. “Administrar com dinheiro é fácil, o segredo é administrar sem recurso”.
Ele disse ainda que a oficina que oferecerá à equipe da Santa Casa não terá mágica, mas fará com que haja interação. “A participação do corpo clínico é fundamental. Vamos fazer um diagnóstico e trabalhar as questões vitais ao hospital. A ideia é construir juntos os planos de ações para que o grupo se sinta corresponsável, coautor, parte do todo”.
Giovanni falou que planejar é um jeito de olhar, integrar, compartilhar, pensar as grandes questões e uma preparação para enfrentar as dificuldades.