Tony Rocha (Foto: Reprodução)
Marcelino conhece o MBC – Manual do Bom Cidadão – como conhece a palma da própria mão. Logo nas primeiras linhas do primeiro parágrafo, o MBC deixa claro: o Bom Cidadão precisa vestir a camisa – azul para homens, rosa para mulheres – e honrá-la. É preciso vestir a camisa da empresa, do país em que vive, da cidade em que mora... Enfim, dê o sangue pela camisa se necessário for.
O segundo parágrafo do MBC ensina que é preciso acatar, respeitar e obedecer cegamente toda forma de poder – desde aquelas pequeninas, como a do policial que exige que você lhe entregue os documentos; até aquelas de grande porte, como a do parlamentar que elabora leis que impacta a vida de milhões. Marcelino tanto estudou o Manual que acabou por vestir todas as camisas; exceto a de Vênus, o que explica o fato de ter uma prole de doze filhos – nenhum deles rebelde – educados à moda do pai.
A cidade na qual Marcelino reside, tornara-se referência na festa de Momo. É grande o número de turistas que o município recebe todos os anos, turistas à procura de uma boa folia carnavalesca, o que é bom pra rede hoteleira, pro comércio em geral, pra cidade, enfim.
E foi às vésperas do carnaval que um turista abordou Marcelino, apontou para aquela obra interminável como reforma de igreja e/ou esperança do povo e perguntou:
“O que significa toda aquela terra na rua?”
“Aqui não temos políticos, temos estadistas”, respondeu Marcelino, vestindo imediatamente a camisa, “a diferença, meu caro, é que políticos pensam na próxima eleição; estadistas pensam no futuro da nação.”
“Mas...”
“É preciso levar em conta o elevado preço da carne vermelha.”
“Não entendi a relação!”
“É muito simples, o poder público decidiu, num momento de sublime inspiração, transformar a rua em rio, onde os munícipes, mediante o pagamento de uma pequena taxa, poderiam pescar.”
“Mas...”
“Note que, além de driblar os altos preços da carne vermelha, o município ofereceria à população uma alimentação mais adequada, todos sabem que a ingestão de peixe é hábito muito saudável.”
O turista ficou sem palavras.
“Aconteceu que, durante os trabalhos...” prosseguiu Marcelino, e resolveu adaptar um texto do Luis Fernando Veríssimo, “durante os trabalhos surgiram vestígios dos Brisas, antiga civilização que aqui viveu e, desde os primórdios, apreciava baladas sertanejas nos momentos de lazer.”
“Mas...”
“Cogitou-se também uma linha de metrô a ser inaugurada em dois mil e...”, parou por um instante, não era prudente estipular uma data, “dois mil e... não vem ao caso.”
“Mas... e quando chove? A chuva não provoca um lamaçal?”
“Tudo calculado, as brilhantes mentes de nossos líderes criaram o esquilama, uma espécie de esqui da neve adaptado ao trópico, a modalidade vai ser incluída na próxima Olimpíada, colocar o nome da cidade no mapa esportivo mundial e... Espere um pouco, você não está acreditando? Saiba que a diferença entre o camelo e o dromedário é uma corcova, se alguém baralha as corcovas e causa confusão, a culpa não é nossa, ao contrário, somos as vítimas!...”