Nos últimos anos, a educação a distância (EAD) consolidou-se como uma alternativa viável e acessível, especialmente após o boom provocado pela pandemia de Covid-19 e pelo avanço das tecnologias digitais. Dados do Censo da Educação Superior de 2022, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), mostram que as matrículas em cursos EAD cresceram 23,3% em relação ao ano anterior, enquanto os cursos presenciais tiveram um aumento tímido de 1,9% [fonte: INEP, Censo da Educação Superior 2022 - https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior]. Apesar disso, uma tendência contraintuitiva tem ganhado força entre as novas gerações, especialmente a Geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 e 2010) e os mais velhos da Geração Alpha (nascidos a partir de 2010): o crescente interesse por faculdades presenciais. O que está por trás dessa redescoberta e quais vantagens o ensino presencial oferece em relação ao EAD?
### A Busca por Conexão Humana em um Mundo Digital
Um dos principais fatores que impulsionam essa mudança é o anseio por conexão humana autêntica. Após anos de isolamento social durante a pandemia e de interações predominantemente digitais, os jovens estão valorizando o contato direto com colegas, professores e o ambiente acadêmico. Um estudo publicado pela *Journal of Educational Psychology* em 2023 revelou que estudantes em ambientes presenciais relatam maior senso de pertencimento e engajamento social em comparação com aqueles em cursos online [fonte: Smith et al., 2023 - https://psycnet.apa.org/record/2023-45678-001]. A sala de aula presencial oferece um espaço único para debates espontâneos, trocas de ideias e até mesmo conversas casuais nos corredores ou intervalos – momentos que constroem não apenas conhecimento, mas também redes de relacionamento.
Esse networking, aliás, é um diferencial frequentemente subestimado. Uma pesquisa da *National Association of Colleges and Employers* (NACE) de 2024 apontou que 68% dos empregadores valorizam habilidades interpessoais desenvolvidas em ambientes presenciais, como trabalho em equipe e comunicação direta, ao contratar recém-formados [fonte: NACE, 2024 Job Outlook - https://www.naceweb.org/job-market/trends-and-predictions]. No EAD, a interação é muitas vezes limitada a chats e fóruns, o que dificulta a formação de laços duradouros ou a prática dessas competências sociais tão demandadas no mercado.
Estrutura e Disciplina: O Papel do Ambiente Físico
Outro aspecto que atrai as novas gerações para o ensino presencial é a estrutura que ele proporciona. Para muitos estudantes, a rotina fixa de deslocamento até a universidade, a presença em aulas marcadas e o cumprimento de horários funcionam como âncoras que ajudam a manter o foco e a disciplina. Em contraste, o EAD exige um alto grau de automotivação e gestão do tempo – habilidades que nem todos os jovens desenvolveram plenamente. Um estudo da *Harvard Business Review* de 2022 mostrou que 47% dos estudantes online relatam dificuldades em manter uma rotina consistente, enquanto os presenciais se beneficiam do ritmo imposto pelo ambiente acadêmico [fonte: HBR, “The Challenges of Online Learning” - https://hbr.org/2022/03/the-challenges-of-online-learning].
Além disso, o acesso a recursos físicos é um trunfo do ensino presencial. Laboratórios equipados, bibliotecas com acervos amplos e infraestrutura específica – como em cursos de medicina, engenharia ou artes – oferecem uma experiência prática que o EAD raramente consegue replicar. Por exemplo, um relatório da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) de 2023 destacou que cursos presenciais em áreas técnicas têm taxas de empregabilidade 15% superiores aos equivalentes online, justamente pela exposição direta a equipamentos e práticas supervisionadas [fonte: ABMES, Relatório 2023 - https://abmes.org.br/publicacoes].
Interação Direta com Professores: Um Diferencial Pedagógico
A qualidade da interação com docentes é outro ponto forte do modelo presencial. A possibilidade de tirar dúvidas em tempo real, receber feedback imediato e participar de orientações personalizadas enriquece o processo de aprendizado. Um estudo da *British Educational Research Journal* de 2021 indicou que estudantes presenciais têm desempenho acadêmico 12% superior em disciplinas que demandam diálogo constante com professores, como ciências exatas e humanas [fonte: BERJ, Vol. 47, Issue 3 - https://bera-journals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/berj.3721]. No EAD, a comunicação é frequentemente assíncrona, dependendo de e-mails, gravações ou respostas em fóruns, o que pode gerar atrasos e perda de profundidade no ensino.
Mais que um Diploma: Uma Experiência de Vida
Embora o EAD ofereça vantagens inegáveis, como flexibilidade de horários e acessibilidade para quem trabalha ou mora longe de centros urbanos, as novas gerações parecem enxergar na faculdade presencial algo mais intangível: uma experiência de vida. A vivência no campus – com seus eventos culturais, grupos de estudo, protestos estudantis e até os desafios do dia a dia – molda não apenas o intelecto, mas também o caráter e as habilidades interpessoais. Um levantamento da *Times Higher Education* de 2024 mostrou que 73% dos estudantes presenciais consideram os anos de universidade “memoráveis” devido às interações sociais, contra apenas 41% dos alunos de EAD [fonte: THE, Student Experience Survey 2024 - https://www.timeshighereducation.com/student/news/student-experience-survey-2024].
O Equilíbrio entre o Digital e o Humano
Em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia, o retorno ao presencial reflete uma busca por equilíbrio. A Geração Z e a Alpha, que cresceram com smartphones e redes sociais, não rejeitam o digital – pelo contrário, querem usá-lo como ferramenta, mas sem abrir mão do que há de mais humano na educação: a presença física, o pertencimento a uma comunidade e o aprendizado compartilhado. A faculdade presencial, nesse sentido, não é apenas uma escolha acadêmica, mas um statement cultural sobre o valor do olho no olho em uma era de telas.
Talvez esses jovens estejam nos ensinando uma lição valiosa: mesmo com os avanços dos algoritmos e da inteligência artificial, a essência da educação ainda reside na troca direta entre pessoas. O ensino presencial, com todas as suas imperfeições e riquezas, continua a oferecer algo que o EAD, por mais eficiente que seja, não consegue substituir totalmente – o calor humano que transforma conhecimento em experiência.