Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com (Foto: Divulgação)
Quem construiu algo grande carrega uma convicção silenciosa: a de que enxerga antes dos outros. E, na maioria das vezes, você enxerga mesmo. Foi essa visão que ergueu a empresa, antecipou mercados, salvou o negócio em horas difíceis. Mas existe um lugar onde essa mesma visão, usada sem convite, deixa de construir e começa a corroer: a vida dos outros.
Na primeira postura, falamos do sim que renuncia. Na segunda, do olhar para o que está certo. Hoje quero mostrar a você o desperdício mais disfarçado de todos, porque ele se veste de ajuda: o palpite.
Quantas vezes você oferece conselhos a quem não pediu ajuda? Quanto da sua energia escoa na vontade de corrigir a rota do cônjuge, do filho, do irmão, do diretor? Você acha que ele deveria cuidar mais da saúde. Que seu filho deveria escolher outra carreira. Que seu irmão deveria ser mais presente com seus pais. Que seu diretor deveria fazer algo de forma diferente. Talvez você tenha razão. E é justamente aí que mora a armadilha, porque ter razão não autoriza ninguém a palpitar, sem ser chamado, na vida alheia. Ninguém muda ninguém. Nós arrastamos as pessoas com o nosso exemplo.
Aliás, na empresa, se não há padrão, se não há manual, se as pessoas não sabem exatamente os nossos inegociáveis, como eu posso dar o feedback de correção?
E aqui mora uma armadilha que quase todo empresário vive. A cabeça de quem está no topo é veloz, complexa, corre na frente do mundo, e que bom que corre. Só que, dentro dessa velocidade, ele acha que todo mundo está entendendo o que ele fala. Na empresa e na vida. Está claríssimo na cabeça dele, mas não foi comunicado. E ninguém tem bola de cristal. Por isso eu digo: a comunicação é a base da Governança Humana. É ela que transforma expectativa em alinhamento. E existe um segredo que antecede tudo: eu só sei me comunicar se eu conheço quem eu sou.
E repare no custo invisível disso dentro da empresa, dentro de uma família empresária, porque ele é dos mais altos que existem. O fundador que palpita em tudo forma herdeiros que não decidem nada. Cada correção não pedida ensina ao sucessor que a opinião dele vale menos. Com os anos, a empresa ganha um dono onipresente e perde uma geração inteira de gente capaz de pensar. Então, na hora da sucessão, o espanto: meu filho, meu líder, não está pronto. Porém, ele nunca teve espaço para ficar pronto. O palpite de hoje é o vácuo de liderança de amanhã. E isso vale para todos: se você não dá autonomia ao outro, bloqueia o crescimento e forma pessoas dependentes da sua decisão. Quem controla tudo não controla nada!
Deixe-me contar uma história que vivi. Em Votuporanga, minha cidade, participei de uma arrecadação de bolsas femininas para uma instituição assistencial. Chegaram quase duzentas bolsas. Algumas eram novas, de marcas desejadas e muito bonitas. Outras, mais simples, como a que uma amiga levou: a única que tinha, pequena, um pouco surrada, entregue quase pedindo desculpas.
E aconteceu o que ninguém esperava. As bolsas famosas, novas, desejadas, foram as últimas a sair. Aquela pequenininha, surrada, foi a primeira a ser escolhida.
E uma das que eu considerava mais bonitas, de marca muito famosa, novinha, foi escolhida por uma mulher que era cega. Ela não a escolheu pela aparência, pela marca ou pela beleza. Escolheu pelo tato, pela quantidade de compartimentos e pela utilidade que aquela bolsa teria na sua realidade. Eu estava olhando para a escolha no meu mundo, com a minha visão de “uso de bolsa”, ela estava olhando para a realidade dela. Naquele dia entendi na pele: o que é melhor para mim não é a medida do que é melhor para o outro. Eu, achando que sabia. A vida, mostrando que não. Antes de opinar sobre a vida de alguém, lembre-se: ninguém enxerga a realidade pelas lentes do outro.
O mesmo acontece quando recebo algum cliente e ofereço o meu café de melhor torra, com alto padrão, e, ao servir, o cliente coloca açúcar. Entende que tudo pede alinhamento de expectativas? Hoje eu pergunto: café puro, com açúcar ou adoçante? A partir desta resposta, eu escolho o melhor no mundo dele. Não adianta você oferecer um belo Barolo para brindar uma conquista se o seu parceiro vai colocar adoçante na taça.
É sobre isso a terceira postura. Cuide da sua vida. O que é prioridade para você talvez não seja para o outro, e está tudo bem. As pessoas são muito mais atraídas pelo exemplo do que convencidas por qualquer palpite. Lembre-se de que a ajuda só fortalece o outro quando respeita o seu tempo, o seu lugar e a sua autonomia, permitindo que ele viva o próprio caminho. Fora disso, ela deixa de ser ajuda e passa a ser invasão. O mesmo princípio encontramos no livro mais lido do mundo. Em Mateus, capítulo 5, versículo 16, lemos: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.”
Perceba: a vida nos convida a não convencer as pessoas, mas a viver de tal maneira que a nossa própria vida seja um exemplo que arrasta. Quer que a sua família mude? Comece por você. Quer outro resultado na empresa? Seja o primeiro a produzir esse resultado. Quer formar sucessores? Conheça quem você é e esteja no seu lugar de potência, porque ninguém forma o outro sem antes se conhecer. Desse lugar, faça perguntas, desenvolva autonomia e confie no processo.
É nesse ponto que as duas governanças se encontram, cada uma no seu papel. A governança corporativa alinha os instrumentos: o acordo de sócios, o conselho, o protocolo familiar, os processos de decisão. A Governança Humana alinha as pessoas: a consciência de quem decide, o exemplo de quem lidera, o lugar de potência de cada um. E repare: a governança corporativa só é vivida de verdade quando a Governança Humana é declarada. Onde há regras claras e gente consciente, não há espaço para palpite. Há valores, há discussão madura e há escolhas que respeitam o propósito, cumprem a missão e dão o passo correto para que a visão seja manifestada.
É por isso que, no Universo InspireAção, nós amamos tanto trabalhar com a Governança Humana. É ela que fortalece as relações, os líderes e as famílias empresárias. É com ela que percorremos a Rota da Clareza com cada profissional e declaramos o DNA do negócio, para que cada pessoa saiba quem é, onde está e para onde vai.
Porque o óbvio para você não é óbvio para o outro. O óbvio se declara, se explica, se ensina e se incorpora, no passo a passo. Só assim cada um permanece no seu caminho, no seu lugar de potência. E só assim o resultado, na vida e nos negócios, é saudável.
No fundo, é a terceira postura inteira cabendo em uma frase: cuide da sua vida. Quando cada um cuida da sua, e a cultura declara o que é de todos, o palpite perde a vez, e a vida ganha mais saúde, felicidade e resultados.
Nesta semana, ligue o botão da percepção e observe: quantas vezes você palpitou onde não foi chamado? E o que aconteceu com a conversa, com o olhar do outro, depois do seu palpite? Repare especialmente em casa e na mesa de decisão, os dois lugares onde mais nos sentimos autorizados a invadir.
E como nosso foco é progredir, vamos juntos?
Escolha a pessoa que mais recebe os seus palpites, pode ser seu cônjuge, um filho, um sócio, um diretor. Nesta semana, substitua cada conselho não pedido por uma pergunta ou pelo silêncio de quem confia. E observe o que nasce nesse espaço que você abriu. É nele que você se sente mais leve e em paz, que o sucessor aprende a decidir, que a relação respira, e que o seu patrimônio invisível se fortalece. E o melhor: preserva a sua energia para o seu caminho. Porque quem cuida da relação prepara a sucessão.
Seguimos juntos, usando a Inteligência do Amor como guia para cada uma das nossas decisões, porque queremos um eu melhor, as pessoas à nossa volta melhores, um mundo melhor.
Vamos juntos?
Porque juntos somos +
A governança corporativa organiza. A Governança Humana sustenta. Cuide da sua Governança Humana.
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Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com