Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com (Foto: Divulgação)
Existe uma solidão que só quem decide conhece: a de rever, de madrugada, a decisão que não saiu como deveria. O contrato que travou, a meta que não veio, a pessoa em quem você apostou e que falhou. Ninguém cobra mais de você do que você mesmo. E é justamente aí que mora um dos maiores vazamentos do seu ativo invisível.
Na primeira postura, falamos do sim que renuncia. Hoje quero mostrar a você o que acontece depois que algo sai do esperado, porque é nesse momento que se separa quem fica preso no problema de quem transforma o problema em patrimônio.
Nós temos uma tendência a olhar só para o que falta. Aconteceu uma situação, não era o que você esperava, e o foco inteiro vai para o erro. Repare no custo disso, porque ele é invisível e é alto. O líder que fica preso no problema bloqueia as possibilidades de solução, contamina a leitura do time e decide a próxima jogada olhando para trás. Conheço empresas que perderam anos, e sociedades desfeitas, não pelo erro em si, mas pelo que fizeram com o erro depois: a busca por culpados, a reunião que vira tribunal, o sócio que nunca mais confiou.
A postura que desperta o invisível é outra, e ela cabe em quatro perguntas. Os meus clientes sabem que existem quatro perguntas que trazem a clareza necessária a cada problema. Faça isso: saia da situação, coloque-se na posição de observador da sua própria vida e pergunte: o que tem de certo sobre isso? Qual é o aprendizado? O que isso diz sobre a minha postura de líder? O que tenho que ajustar?
Fique com as perguntas. Toda pergunta é muito mais importante do que a resposta, porque é ela que abre o olhar para as infinitas possibilidades. Focar no erro prende no problema. Focar no aprendizado coloca em movimento, e a vida é movimento.
Um exemplo que ouvimos com frequência de quem lidera. O sócio traiu, desviou, quebrou a confiança. O liderado não seguiu os protocolos. A dor é real. Mas repare na pergunta que devolve o comando: quem escolheu esse sócio? Quem aprovou a contratação? A escolha foi sua, e a responsabilidade sobre a escolha também. O que tem de certo nessa situação é o aprendizado sobre como você escolhe, sobre os sinais que ignorou, sobre o contrato que aceitou não fazer.
Quando começamos a olhar para essas quatro perguntas e buscamos respondê-las, nossa visão começa a se ampliar. Passamos a perceber aquilo que antes permanecia invisível. Eu costumo dizer que existem mundos dentro de mundos. Cada nova compreensão nos conduz a um novo mundo, porque ampliamos a nossa consciência e, consequentemente, a nossa forma de enxergar a realidade.
O livro mais lido do mundo apresenta esse mesmo princípio por outro caminho. Em Romanos, capítulo 12, versículo 2, o apóstolo Paulo escreve: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
A transformação começa pela renovação da mente. Quando a forma de pensar se transforma, amplia-se também a forma de perceber a realidade. E quando a percepção muda, as decisões mudam. A mudança acontece primeiro no olhar e, depois, nos resultados.
A tradição filosófica indiana chama isso de Véu de Maya, a ilusão que encobre a realidade e limita a percepção humana. Enquanto permanecemos identificados apenas com aquilo que vemos na superfície, deixamos de acessar possibilidades que sempre estiveram presentes, mas ainda não eram percebidas.
O mesmo acontece quando concentramos toda a nossa atenção no problema. O problema ocupa o centro da nossa consciência e reduz o campo de visão. Quando ampliamos o olhar, surgem novas perspectivas, novos caminhos e novas soluções. A realidade pode permanecer exatamente a mesma. O que se transforma é a forma como nos relacionamos com ela.
É justamente essa mudança de percepção que abre espaço para escolhas mais conscientes, decisões mais sábias e resultados diferentes.
Percebe a diferença de postura?
Tem sabedoria antiga nisso. Epicteto, o mestre estoico que nasceu escravo e formou governantes, ensinava que não são os fatos que nos abalam, e sim o juízo que fazemos deles. Marco Aurélio, o imperador que governou Roma escrevendo diários para si mesmo, praticou esse princípio no exercício do poder. O fato já aconteceu e não se altera. O que permanece em suas mãos é a leitura, e é a leitura que define a próxima decisão. Quem governa a si mesmo governa primeiro o próprio olhar.
E aqui está a conta que nenhum balanço faz. Toda empresa paga pelos erros que comete, isso é inevitável. Mas só algumas recebem o retorno desse pagamento, porque só algumas transformam o erro em aprendizado. O erro que vira aprendizado é um ativo que rende para sempre. O erro que vira culpa é um passivo que cobra para sempre. A diferença entre um e outro não está no fato, está na postura da liderança. E é dessa postura que se constrói o patrimônio que nenhum balanço mostra.
Nesta semana, ligue o botão da percepção e observe: diante do que não saiu como você esperava, para onde foi o seu olhar? Para o erro ou para o aprendizado? Valide no seu maior laboratório, que é a sua vida e a sua empresa.
E como nosso foco é progredir, vamos juntos?
Vamos renovar a nossa forma de olhar para a vida e para os seus enfrentamentos? Vamos escolher o princípio da vida plena, a postura correta, renovando continuamente as nossas lentes para ampliar a visão sobre nós mesmos, sobre as pessoas e sobre as oportunidades que sempre estiveram diante de nós?
É exatamente esse princípio que encontramos novamente no livro mais lido do mundo. Em Isaías, capítulo 43, versículos 18 e 19, Deus nos convida: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios no ermo.”
A pergunta é profundamente reveladora: “Porventura, não o percebeis?” Quantas vezes a resposta, o aprendizado ou um novo caminho já estão diante de nós, enquanto o nosso olhar continua preso ao erro, à dor ou ao que ficou para trás? A mudança começa quando escolhemos ampliar a percepção.
Escolha uma situação recente que ainda pesa, aquela que você revisita de madrugada. Coloque-se na posição de observador e permaneça com as perguntas: o que tem de certo sobre isso? Qual é o aprendizado? O que isso diz sobre a minha postura de líder? O que tenho que ajustar?
Quando as respostas vierem, escreva, porque o que se escreve ganha direção. Depois, transforme esse aprendizado em uma decisão concreta nesta semana. É assim que um erro deixa de ser custo e passa a compor o seu patrimônio invisível, aquele que você constrói quando investe na qualidade do seu olhar. Porque, quando um líder amplia a própria consciência, fortalece pessoas, relações e empresas. E é assim que os legados se perpetuam.
Seguimos juntos, usando a Inteligência do Amor como guia para cada uma das nossas decisões, porque queremos um eu melhor, as pessoas à nossa volta melhores, um mundo melhor.
Vamos juntos?
Porque juntos somos +
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