Tabeliã de Votuporanga, Gabriela Franco Foto: A Cidade
A ideia de que o casamento é baseado apenas no amor e na parceria afetiva vem, aos poucos, dando espaço a uma conversa mais completa – e necessária: a relação do casal com o dinheiro.
Recentemente, a tabeliã de Votuporanga, Gabriela Franco, em parceria com a jurista Flávia Gentil, publicou no portal jurídico Migalhas um artigo que propõe uma reflexão atual e importante: a chamada infidelidade financeira.
Mas afinal… o que é isso?
A infidelidade financeira acontece quando um dos parceiros omite decisões relevantes envolvendo dinheiro. Não se trata de pequenas despesas do dia a dia, mas de situações que podem impactar o patrimônio e a estabilidade da família.
Entre os exemplos mais comuns estão a contratação de empréstimos sem conhecimento do outro, a ocultação de dívidas, a realização de investimentos de alto risco sem diálogo, ou até mesmo a manutenção de contas paralelas com o objetivo de esconder movimentações financeiras.
Embora o termo ainda não esteja expressamente previsto na legislação, ele descreve uma realidade cada vez mais presente nas relações contemporâneas: a quebra da confiança no âmbito patrimonial.
E o dado chama atenção. Pesquisas internacionais indicam que uma parcela significativa de pessoas admite já ter omitido informações financeiras de seus parceiros, o que demonstra que o problema é mais comum do que se imagina.
Muitas vezes, essas situações geram conflitos tão intensos quanto aqueles decorrentes de infidelidade afetiva. Isso porque o casamento não envolve apenas sentimentos – ele também representa uma construção econômica conjunta, baseada em cooperação, responsabilidade e transparência.
É nesse ponto que o tema se conecta diretamente com a atividade notarial.
Segundo as autoras, o pacto antenupcial – tradicionalmente conhecido por definir o regime de bens do casal – pode assumir um papel muito mais amplo. Ele pode ser utilizado como um verdadeiro instrumento de planejamento e organização da vida financeira do casal.
Por meio dele, é possível estabelecer regras claras sobre a gestão do patrimônio, definir limites para decisões financeiras relevantes e até criar mecanismos de transparência entre os cônjuges.
Em outras palavras, o pacto deixa de ser apenas um documento formal e passa a funcionar como uma ferramenta de prevenção de conflitos.
E aqui vale uma reflexão importante: planejar não é desconfiar.
Falar sobre dinheiro antes ou durante o casamento não enfraquece a relação. Ao contrário, fortalece. Isso porque permite que o casal alinhe expectativas, evite surpresas e construa uma relação baseada não apenas no afeto, mas também na segurança.
Em um cenário em que investimentos digitais, novos modelos de negócios e decisões financeiras rápidas fazem parte do cotidiano, a ausência de diálogo sobre o tema pode gerar consequências significativas.
Por isso, discutir a organização financeira do casal deixou de ser um tabu e passou a ser um sinal de maturidade.
A reflexão proposta pelas autoras é clara: a confiança no casamento não se sustenta apenas na dimensão emocional. Ela também depende da previsibilidade das decisões econômicas e da transparência na condução da vida patrimonial.
No fim, a mensagem é simples – e ao mesmo tempo profunda:
Relacionamentos se constroem com confiança.
E confiança também passa pelo dinheiro.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja jurídica, mas pessoal:
Você já conversou sobre isso no seu relacionamento?