Procedimento cirúrgico de fusão vertebral é indicado para casos específicos de instabilidade e degeneração severa, e a escolha do especialista certo faz diferença no resultado
Quem convive com dor lombar crônica conhece bem o ciclo: repouso, anti-inflamatório, fisioterapia, melhora parcial, nova crise. Para a maior parte das pessoas que chegam a esse ponto, o tratamento conservador ainda é o caminho correto.
Mas existe um grupo de pacientes para quem esse ciclo já foi percorrido por meses ou anos sem resultado. Nesses casos, a avaliação cirúrgica deixa de ser uma hipótese distante para se tornar uma necessidade clínica concreta.
A Organização Mundial da Saúde aponta a lombalgia como a segunda causa mais comum de procura por serviços de saúde no mundo. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 registrou que 23,4% dos adultos brasileiros relatavam problema crônico de coluna. Esse número subiu para 33,9% nos dados coletados durante a pandemia, reflexo do sedentarismo forçado e da piora postural gerada pelo home office prolongado.
Entre as cirurgias disponíveis para tratar casos graves de instabilidade vertebral, a artrodese é uma das mais realizadas no país. Segundo levantamento publicado na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação com base em dados do DATASUS, o SUS registrou 98.798 artrodeses de coluna entre 2015 e 2024, com as regiões Sudeste e Sul concentrando 72,1% dos procedimentos. São Paulo aparece como o estado com maior volume de cirurgias.
O que é a artrodese e o que ela faz
Segundo Dr. Aurélio Arantes, médico de destaque em coluna vertebral em Goiânia, a artrodese é um procedimento cirúrgico que funde dois ou mais segmentos da coluna vertebral. Parafusos, hastes metálicas e espaçadores chamados cages são usados para estabilizar a região afetada enquanto ocorre a fusão óssea natural. O objetivo é eliminar o movimento anormal entre as vértebras, que em certos quadros é a fonte direta da dor e da compressão nervosa.
O procedimento pode ser realizado na coluna cervical, torácica ou lombar, dependendo de onde está a instabilidade. A artrodese lombar é a mais comum: indicada para espondilolistese, doença degenerativa do disco, hérnia recorrente e estenose do canal vertebral. A cervical é frequentemente necessária em casos de compressão medular por hérnia cervical que não responde a tratamento clínico.
Com o avanço das técnicas minimamente invasivas, muitos desses procedimentos hoje são realizados por incisões de menos de dois centímetros, com menor sangramento, menor tempo de internação e recuperação mais rápida do que nas abordagens tradicionais.
Quando o tratamento conservador não é suficiente
A artrodese não é o primeiro passo. Ela é indicada quando outros tratamentos falharam, e essa definição tem peso clínico preciso. Fisioterapia, medicação, infiltrações, bloqueios e procedimentos minimamente invasivos de descompressão são tentados antes.
A cirurgia de fusão entra quando esses recursos não resolvem e o paciente mantém dor incapacitante, déficit neurológico progressivo ou instabilidade estrutural documentada por exame de imagem.
As principais condições que levam à indicação de artrodese incluem: espondilolistese (quando uma vértebra desliza sobre a outra causando compressão nervosa), hérnia de disco grave com recorrência após cirurgias anteriores, escoliose degenerativa do adulto, fraturas vertebrais instáveis e estenose severa do canal lombar.
Em cada um desses casos, o critério não é apenas a presença da doença. O que define a indicação cirúrgica é a falha em controlar os sintomas por outros meios.
O dado do Ministério da Previdência Social divulgado em 2024 ilustra a dimensão do problema: aproximadamente 51,4 mil pessoas receberam benefícios por incapacidade temporária em decorrência de lesões na coluna naquele ano, com a dor lombar respondendo por quase 47 mil dessas concessões.
Parte dessas pessoas chega ao sistema já em estágio avançado, quando a janela de tratamento conservador ficou para trás.
O papel do especialista na decisão cirúrgica
A indicação correta da artrodese depende de uma avaliação clínica detalhada, com revisão de exames de ressonância magnética e tomografia, análise do histórico de tratamentos anteriores e entendimento das limitações funcionais do paciente. Não basta encontrar uma hérnia ou uma vértebra degenerada nas imagens: o critério é a correlação entre o achado de imagem e o quadro clínico do paciente.
Por essa razão, quem enfrenta dor persistente na coluna sem melhora com tratamentos conservadores deve buscar avaliação com um especialista que opere com volume cirúrgico consistente e formação específica em coluna vertebral.
A realização de uma cirurgia de artrodese exige domínio técnico de abordagens distintas, sejam elas anterior, posterior ou mista, e capacidade de selecionar a técnica mais adequada para cada quadro.
Cirurgiões com mais de dois mil procedimentos realizados e vínculos com instituições de ensino tendem a ter maior repertório para lidar com casos complexos, como revisões de cirurgias anteriores ou deformidades com múltiplos níveis comprometidos. Esse histórico deve ser verificado pelo paciente antes de marcar a avaliação.
Técnicas modernas e o que mudou na recuperação
Uma das principais mudanças nas últimas décadas foi a disseminação das abordagens minimamente invasivas para artrodese. Onde antes havia incisões extensas com descolamento muscular amplo, hoje existem técnicas como a TLIF (fusão intersomática transforaminal) e a LLIF (fusão lateral) que acessam a coluna com trauma muscular mínimo. O resultado prático é alta hospitalar mais rápida e retorno às atividades em menos tempo.
A tecnologia de monitoração neurológica intraoperatória é outro recurso que melhorou a segurança do procedimento. Equipamentos que monitoram a atividade dos nervos em tempo real durante a cirurgia permitem que o cirurgião identifique e corrija qualquer risco antes que ele se torne dano permanente. Complicações neurológicas, que antes eram uma preocupação maior, são hoje consideradas raras nas mãos de equipes experientes.
O tempo médio de uma artrodese varia entre duas e três horas, conforme a complexidade do caso e o número de segmentos tratados. A recuperação completa pode levar de meses a um semestre para atividades que envolvem carga, mas a maioria dos pacientes retorna às atividades cotidianas em algumas semanas.
Como avaliar o especialista antes de marcar a consulta
Para quem está diante de uma indicação cirúrgica de artrodese, algumas informações básicas ajudam a calibrar a escolha. Verificar o CRM do médico, o RQE (Registro de Qualificação de Especialista) e a filiação a sociedades como SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e SBC (Sociedade Brasileira de Coluna) são pontos de partida concretos. Esses registros confirmam que o profissional passou pelos critérios formais de certificação na área.
Volume cirúrgico e experiência em casos específicos também contam. Um cirurgião que opera regularmente os mesmos tipos de patologia tem curva de aprendizado consolidada, e isso tem impacto direto nos resultados.
Buscar referências em clínicas com equipes multidisciplinares, onde ortopedistas de diferentes subespecialidades trabalham juntos, é outro caminho recomendado por especialistas da área.
Para quem mora no interior paulista e busca referências fora do estado, Goiânia tem se consolidado como polo de ortopedia de alta complexidade. A cidade atrai pacientes de diversas regiões do Brasil, com clínicas que reúnem ortopedistas certificados pela SBOT em múltiplas subespecialidades: coluna, joelho, quadril, ombro e pé. Tecnologia de cirurgia minimamente invasiva e robótica está disponível no mesmo espaço.
O momento de pedir uma segunda opinião
"Pacientes que passaram por mais de três meses de tratamento conservador sem melhora consistente, que têm exame de imagem com achado relevante correlacionado à dor, ou que apresentam sinais neurológicos como formigamento persistente nas pernas, fraqueza muscular progressiva ou alteração no controle urinário, estão dentro do perfil que justifica uma avaliação cirúrgica. Isso não significa que a cirurgia será necessária. Significa que a avaliação deixou de ser opcional", esclarece o time de especialistas do COE, centro de ortopedia de referência em Goiânia.
A segunda opinião, nesse contexto, não é desconfiança: é parte do processo. Cirurgiões de coluna experientes esperam que o paciente chegue com perguntas, com histórico documentado e com vontade de entender o que está sendo proposto antes de decidir. Quando o médico não acolhe essas perguntas, isso, por si só, já é uma informação relevante sobre o atendimento que o paciente vai receber.
A dor na coluna que não melhora tem causa. Identificá-la corretamente e saber quando a cirurgia é a resposta certa é o que separa um tratamento efetivo de mais um ciclo sem resultado.