Mais de 25 milhões de brasileiros convivem com a doença do refluxo gastroesofágico, mas boa parte trata os sintomas sem nunca investigar a causa e esse atraso pode ter consequências sérias
A cena é comum em qualquer cidade do interior paulista: a pessoa chega à farmácia, descreve uma queimação no peito depois do almoço, sai com uma caixa de antiácido e repete o ciclo semana após semana.
A azia é tratada como incômodo doméstico, não como sintoma de uma doença crônica que, quando ignorada por tempo suficiente, provoca lesões no esôfago e eleva o risco de complicações que vão muito além do desconforto após as refeições.
Segundo estudo do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva publicado em 2024, a doença do refluxo gastroesofágico, conhecida pela sigla DRGE, atinge 25,2 milhões de brasileiros. Em números proporcionais, afeta entre 12% e 20% da população do país, dependendo da região e do critério diagnóstico utilizado.
Nas áreas urbanas, as diretrizes publicadas em 2024 pela Federação Brasileira de Gastroenterologia apontam que até 1 em cada 5 pessoas tem a doença. São números que colocam o refluxo entre as condições digestivas de maior prevalência no Brasil e, ao mesmo tempo, entre as mais tratadas sem acompanhamento médico adequado.
A automedicação prolongada não é inofensiva. Quando o refluxo crônico não é investigado e controlado corretamente, pode inflamar o esôfago, provocar esofagite erosiva e, em casos mais avançados, levar ao esôfago de Barrett, uma alteração na mucosa que eleva o risco de câncer de esôfago. O caminho de volta a partir desse ponto é mais longo e mais difícil do que o tratamento precoce.
O que acontece no esôfago quando o refluxo é crônico
O refluxo gastroesofágico acontece quando o conteúdo ácido do estômago retorna ao esôfago por falha no esfíncter esofágico inferior, a válvula muscular que separa os dois órgãos.
Quando esse retorno ocorre de forma eventual, o próprio organismo resolve. Quando se torna frequente, o ácido que o esôfago não foi projetado para suportar começa a provocar lesões progressivas na mucosa.
Os sintomas mais comuns são azia e regurgitação, mas o refluxo também pode se manifestar de formas que muita gente não associa ao problema digestivo: tosse crônica sem causa aparente, pigarro persistente, rouquidão matinal, sensação de globo na garganta e episódios de asma que não respondem bem ao tratamento.
Essas manifestações extraesofágicas levam muitos pacientes a passar por otorrinolaringologistas ou pneumologistas por meses antes de chegarem a um gastroenterologista.
A hérnia de hiato, condição em que parte do estômago sobe para a cavidade torácica pela abertura do diafragma, está associada a boa parte dos casos de refluxo mais intenso.
Obesidade, tabagismo, refeições volumosas próximas ao horário de dormir e consumo frequente de café, chocolate, frituras e bebidas gaseificadas são fatores que agravam a condição. O sedentarismo, a insônia e o estresse também aparecem em estudos nacionais como variáveis associadas à maior prevalência da DRGE.
Antiácido controla sintoma, não trata doença
O problema da automedicação no refluxo não é que o antiácido não funcione: é que ele trata o sintoma sem investigar a origem. Em muitos casos, a causa do refluxo exige um diagnóstico mais preciso, com identificação da presença de hérnia de hiato, do grau de lesão na mucosa esofágica e da relação com outros fatores de risco. Sem esse mapeamento, o paciente vai trocando de marca de antiácido enquanto as lesões no esôfago avançam silenciosamente.
As diretrizes brasileiras de 2024 para manejo da DRGE, publicadas nos Arquivos de Gastroenterologia, recomendam que casos com sintomas frequentes sejam avaliados por especialista para definir o tratamento adequado, que pode incluir inibidores da bomba de prótons, ajustes no estilo de vida e, em casos selecionados, intervenção cirúrgica.
A diretriz também reforça que dois terços dos pacientes com DRGE não erosiva apresentam recorrência dos sintomas após o término do tratamento empírico, o que indica a necessidade de acompanhamento médico contínuo.
A endoscopia digestiva alta é o exame que permite ver diretamente o estado do esôfago e classificar a esofagite quando presente. A escala de Los Angeles, usada internacionalmente, vai do grau A ao D.
Pacientes com esofagite nos graus C e D têm recorrência dos sintomas em praticamente todos os casos dentro de seis meses sem tratamento de manutenção. Chegar a esses graus sem ter feito nenhum exame é resultado, quase sempre, de anos de automedicação.
Quando a cirurgia entra na equação
A maioria dos casos de refluxo responde bem ao tratamento clínico com mudança de hábitos, uso correto dos medicamentos e acompanhamento periódico.
Mas há um grupo de pacientes para quem o tratamento farmacológico não é suficiente: casos com hérnia de hiato de grande volume, refluxo refratário a múltiplos esquemas medicamentosos ou pacientes que não toleram o uso contínuo de inibidores da bomba de prótons. Para esses, a cirurgia antirrefluxo, em especial a fundoplicatura videolaparoscópica, é uma opção consolidada.
A fundoplicatura reconstitui o mecanismo valvular entre o esôfago e o estômago, reduzindo ou eliminando os episódios de refluxo. Quando indicada corretamente e realizada por médico especialista em aparelho digestivo com experiência em cirurgia digestiva minimamente invasiva, a recuperação costuma ser rápida e os resultados, duradouros.
A via laparoscópica reduziu significativamente o tempo de internação e os riscos associados ao procedimento em comparação com as técnicas abertas de décadas anteriores.
O Dr. Thiago Tredicci, gastrocirurgião em Goiânia com mais de 15 anos de experiência em cirurgia do aparelho digestivo, é especializado no tratamento cirúrgico do refluxo e da hérnia de hiato. Formado pela Universidade Federal de Goiás, com residência em Cirurgia do Aparelho Digestivo no HC-UFG, fellowship no National Cancer Center de Tóquio e título de especialista pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CRM GO 12828, RQE 8168 e 8626), atua com técnicas minimamente invasivas e exerce a função de preceptor da residência médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo do HC-UFG.
Os sinais que indicam hora de sair da farmácia e ir ao médico
Nem toda azia exige consulta imediata. Mas há situações em que a avaliação especializada não deve ser adiada. Refluxo que ocorre mais de duas vezes por semana, sintomas que persistem mesmo com o uso de antiácidos, dificuldade para engolir, perda de peso sem explicação, tosse crônica associada às refeições, rouquidão persistente e qualquer sangramento ao engolir são sinais que justificam a realização de endoscopia.
A faixa etária também importa. Pessoas acima de 45 anos com histórico longo de refluxo têm indicação para endoscopia de rastreamento do esôfago de Barrett, mesmo que os sintomas pareçam controlados. A alteração na mucosa que caracteriza o esôfago de Barrett pode ser assintomática e o diagnóstico precoce é o único fator que muda o prognóstico nesse cenário.
Para quem quer entender melhor o tema antes de marcar uma consulta, os melhores médicos do aparelho digestivo compartilham informações sobre diagnóstico e tratamento do refluxo em linguagem acessível nas redes sociais, um ponto de partida útil para identificar quando os sintomas já pedem uma avaliação mais cuidadosa.
O esôfago não consegue avisar que está no limite
O esôfago não dói da mesma forma que um músculo sobrecarregado ou uma articulação inflamada. A mucosa pode estar com esofagite erosiva enquanto o paciente sente apenas o mesmo desconforto de sempre e continua trocando de antiácido achando que está resolvendo o problema. Por isso o refluxo persistente merece mais atenção do que costuma receber.
O tratamento da DRGE evoluiu muito nos últimos anos. Os medicamentos da nova geração, as técnicas cirúrgicas minimamente invasivas e os protocolos de acompanhamento definidos pelas diretrizes de 2024 oferecem opções eficazes para praticamente todos os perfis de paciente. O ponto de partida, em todos os casos, é sair da automedicação e ter um diagnóstico real sobre o que está acontecendo no esôfago.
Para o morador do interior paulista, a distância de grandes centros especializados já não é a barreira que era há dez anos. A telemedicina ampliou o acesso à primeira avaliação, e muitos procedimentos cirúrgicos do aparelho digestivo, inclusive a fundoplicatura, são realizados com técnicas minimamente invasivas que permitem alta hospitalar em menos de 48 horas.
O obstáculo, na maioria dos casos, ainda é o tempo que passa entre o primeiro sintoma e a primeira consulta especializada.