Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com (Foto: Divulgação)
ra a parte mais silenciosa de estar no topo: a de que quase tudo passa por você, e quase nada é dividido com alguém. As decisões chegam, os problemas chegam, as expectativas chegam. E você sustenta. Sustenta o sócio, o time, a família, o nome que construiu. Faz isso tão bem que ninguém percebe o peso. Nem você, às vezes, se dá esse direito.
Talvez por isso você venha adiando aquela decisão, a que desagrada a um sócio, a um filho, a um diretor. Ela continua ali, intacta, pesando no seu silêncio. E metade do ano já se foi. Começo por ela porque é aqui que mora a primeira postura que ativa o seu ativo invisível, e ela é mais simples, e mais difícil, do que parece: parar de dizer sim quando você quer dizer não.
Deixe-me mostrar a você algo que poucos, no comando de uma empresa, param para enxergar. Existe, dentro do seu negócio, um ativo que nenhum balanço registra e que decide sobre o futuro dele mais do que qualquer linha do resultado. Não é o caixa, não é o patrimônio, não é a carteira de clientes. É a qualidade das suas relações e a clareza com que você decide e se posiciona. É o ativo invisível. E ele se revela primeiro num gesto que ninguém associa a estratégia: a sua capacidade de dizer não.
Parece pouco. Não é. Estudos sobre empresas familiares mostram que a maioria não sobrevive à segunda geração, e que uma parcela ainda menor chega à terceira. Quando se investiga o que ruiu, quase nunca foi o dinheiro. Foi o humano. Foi o sócio que engoliu discordâncias por anos, até romper. Foi o fundador que nunca soube dizer não ao herdeiro despreparado e, mesmo assim, entregou o comando. Foi quem dizia sim a todos, menos a si mesmo, e chegou exausto à hora em que mais exigia lucidez. O invisível não avisa quando cobra. Ele apenas cobra.
E vale reparar onde tudo isso nasce. No topo, tudo converge para você. A cobrança em casa, o sócio descontente, o diretor que falhou, o filho que reivindica espaço, tudo chega à sua mesa. E você, que aprendeu a sustentar todo mundo, foi aprendendo também a dizer sim quando queria dizer não. Para manter a paz. Para agradar. Só que, a cada sim dito por conveniência, apaga-se um pouco de quem decide. E um líder que se apaga aos poucos não prepara continuidade nenhuma. Apenas transfere o conflito para a geração seguinte.
Repare na armadilha mais sutil, porque é aqui que o ativo se desgasta sem aparecer. Você diz sim ao trabalho e falta ao jantar de casa. Sim ao cliente e adia a conversa com o filho. Sim à empresa e, pouco a pouco, deixa de ser quem é. A vida acontece na troca. Aqui, no Universo InspireAção, eu chamo o relacionamento de pó de ouro. Por quê? Porque ninguém constrói nada sozinho. E você é a pessoa que arrasta os outros para o seu movimento. Quanto mais você habita o seu lugar de potência, quanto mais a sua essência transborda na liderança, mais as pessoas se engajam e mais elas entendem o que você diz. Mas não há transbordo em quem vive para agradar. Quem se anula não arrasta ninguém.
Um exemplo reconhecível. Segunda-feira é o seu dia de jogar tênis. Está lá na agenda, é o seu horário, aquele momento que é só seu. Aí um cliente convida você para um lançamento de produto na mesma segunda, no horário do tênis. E surge a voz interna: vou fazer uma média, será que ele fica chateado se eu não for? Nada disso muda a relação comercial. Você não vai comprar nada no lançamento, não vai fechar negócio ali. Ir atende apenas à necessidade de agradar, e tira você do seu lugar de potência. Desse lugar, sabendo que a ausência é possível, a resposta é serena: agradeço o convite, honra-me integrar essa lista, e sou grato pela sua compreensão quanto à minha ausência. E encerra-se aí. Sem justificativa, sem explicação que vira desculpa. Um não, e foco na solução. E o seu tênis, que é o seu cuidado com você, permanece de pé.
Eis o princípio que sustenta tudo o que fazemos. Posicionar-se com verdade não é rigidez, é amor. É a Inteligência do Amor em exercício, porque amar começa por honrar o que é seu: o seu tempo, o seu lugar, a sua família. Não é ideia nova. Há mais de dois mil anos, Platão já ensinava que ninguém está pronto para governar os outros antes de aprender a governar a si mesmo. O domínio de si vem primeiro, e dizer não, no lugar certo, é a forma mais concreta desse governo interior. Aliás, no livro mais lido do mundo isso já estava escrito, com uma simplicidade que atravessa os séculos: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.” Está em Mateus, capítulo 5, versículo 37.
Nesta semana, ligue o botão da percepção e observe: em quais decisões você diz sim para agradar e se esquece de si, dos seus e daquilo que veio construir? As pessoas não seguem palavras, seguem coerência. No dia em que o seu sim for sim e o seu não for não, você vai notar algo curioso: de repente, todos passam a entender exatamente o que você quis dizer. A sucessão não começa no sucessor. Começa em você.
E como nosso foco é progredir, vamos juntos?
Escolha uma única decisão que você vem adiando para não desagradar alguém. Uma só. Posicione-se ainda esta semana: enuncie o seu não com serenidade, sem justificativa, e ofereça a solução no mesmo gesto. Depois, faça a conta que nenhum balanço faz: quantas horas da sua semana são entregues para agradar aos outros, e quantas restam para pensar o futuro do seu negócio e da sua família? Essa conta revela o retorno mais alto que existe, o que você colhe quando investe em si mesmo. Nenhum ativo da sua empresa rende como esse.
Seguimos juntos, usando a Inteligência do Amor como guia para cada uma das nossas decisões, porque queremos um eu melhor, as pessoas à nossa volta melhores, um mundo melhor.
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Porque juntos somos +
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