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Recebi de uma grande amiga o texto a seguir, que motivou esta reflexão: [16:13, 23/06/2026] “Uma sociedade que obriga uma pessoa de noventa anos a usar um smartphone para acessar seus próprios direitos não é moderna: é uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou aplicativo, código, portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos hoje se encontra analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso buscar ajuda num filho ou num neto, quando existe um. O sistema falhou. Isto não é inovação. É exclusão. A tecnologia deve ajudar, e não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo. Estamos apenas nos tornando mais cômodos e mais egoístas. ” A despeito de compreender o que o escritor pretendeu abordar — sua insatisfação com os avanços da sociedade e a suposta exclusão de seres humanos que acumularam anos, intensamente vividos — tenho que discordar, enfaticamente, desse desígnio inapropriado aos seres humanos. Inicio com a fala da professora Liselott Diem, em 1978, uma alemã que apresentou seus posicionamentos a um grupo de docentes em formação: “Quem se preocupa com a aprendizagem de seres humanos não estabelece limites fixos para o aprender”. Portanto, seres humanos sempre aprendem e se apropriam de novos saberes necessários à vida em sociedade. Não somos eremitas. Entendo que pessoas com mais idade tenham a opção, individual e seletiva, de não se apropriar de conhecimentos sobre a relação com a vida em seu tempo. Mas não acredito que tenhamos limites fixados em função dos anos acumulados para nossa relação com o mundo. O mundo, queira ou não, aceite ou negue, ou mesmo que alguém tenha o desejo de se afastar dessas condições de interação, ainda oferece a possibilidade de continuar exercendo seus direitos por outros caminhos. Penso que o autor deste texto não foi a uma famosa rede de alimentação que, sem aviso prévio, passou a oferecer atendimento — antes realizado por uma garçonete — por meio de equipamentos eletrônicos. Nos primeiros momentos há, sim, dificuldades inerentes ao “novo”. Basta ter paciência e a ajuda inicial de outro ser humano para superar a dificuldade. O que está equivocado é o “ensinante” desejar que o “aprendente” faça com a mesma velocidade e raciocínio que ele apresenta. Observe: falo em “outro”, e não “um mais novo”. Em outro tempo, quando assumi a gestão de uma escola de educação básica, tinha sob minha responsabilidade a produção de exercícios e provas mensais em todas as disciplinas. A pessoa que preparava tais documentos era uma senhora de mais de 70 anos e o fazia em uma máquina de escrever comum, o que exigia correção com os famosos “branquinhos”. Certa vez decidi aproximá-la do computador para a produção. Primeira reação: “Não vou aprender isso, não. Vai me tomar muito mais tempo para fazer e refazer tudo de novo”. Uma tarde fui até a reprografia e me coloquei com um computador ao lado dela. Pedi a mesma prova que ela havia recebido para digitar, ao mesmo tempo que ela. Pois bem, terminei muito antes, encaminhei o original para correção da professora responsável, recebi de volta e ajustei o texto para a impressão definitiva. Reação: “Você poderia me ensinar a usar? ” Resumindo: ela passou a usar o computador, ensinou sua neta, que passou a vender trabalhos de digitação de dissertações de mestrado com maior agilidade, qualidade e eficiência. Duplicou o rendimento. O maior dos arquitetos brasileiros, Oscar Niemeyer, faleceu aos 104 anos trabalhando e produzindo ativa e velozmente ao longo de toda a vida. E não foi excluído pela tecnologia — usava softwares de arquitetura disponíveis. Uma de suas frases mais famosas é: “A arquitetura é invenção. Quando não é invenção, é construção”. Este professor iniciou sua aproximação com a tecnologia nos computadores de dois drives e disquetes de 5 ¼, que algumas pessoas nem sabem que existiram. Hoje, atuo com IA na correção dos meus escritos, como foi com este. Abraços idosos e criativos.
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