Cleide Semenzato é assistente social, escritora e atua na interface entre educação, família e políticas públicas, refletindo sobre os desafios das relações humanas e da proteção social. (Foto: Divulgação)
Há um momento na vida em que compreendemos pouco sobre o tempo e menos ainda sobre a falta que ele fazia. Na infância, o tempo parecia infinito. Era diferente, trabalhava desde muito cedo, mas brincava, sonhava e bordava com inocência a colcha de alegria intima repleta de momentos simples e mágicos. Não sabia muito sobre o mundo, não havia internet, mas sabia sobre a saudade. Ah...sabia! Aquela sensação estranha que nascia mesmo antes de entender sua natureza. Saudade de quem não estava por perto, do que não podia ser feito, de algo como uma inalcançável fantasia que era tecida com fio invisível, não sabia de onde vinha. De forma intuitiva, comecei a guardar em um baú as memórias mais preciosas, um lugar mágico onde tudo o que fazia o coração vibrar poderia estar. Nesse baú, comecei a armazenar retalhos do mundo. Nele foram parar folha de arvore, gota da chuva que chovia, o medo que ela escondia, os bilhetes que escrevia e que recebia, os desenhos que fazia num tempo que eu sabia que não perdia, a imensidão dos sentimentos que vivia e a história da vida que eu tecia. Juntei poesia e fotografia com as flores que sempre colhia com os sonhos que nunca adormecia. O baú foi ganhando mais e mais memorias e afetos com o passar dos anos e se tornou um companheiro fiel. Guardou os momentos da juventude, os risos desinteressados, os primeiros amores. E depois, os registros das conquistas, os filhos, os netos, e as histórias que vieram com eles. Guardar tanto amor e tantas vivências acabou tornando o baú pequeno demais. Mas, ainda assim, ele permanece o símbolo de uma vida bem vívida. Hoje, ao olhar para trás, sinto algumas tristezas e muitas alegrias. Cada memória, cada pedaço de papel, cada folha seca carrega em si a essência de um momento que não se perdeu. O tempo foi meu aliado. E, graças as lembranças preciosas, posso revisitar esses fragmentos sempre que quiser. O passado não é algo que se perde. Os bilhetes amarelados, as fotografias desbotadas ou os desenhos infantis dão sentido à nossa jornada. Mais do que um objeto, é um símbolo de amor, de sonhos, de vida. Afinal, o verdadeiro tesouro da vida não está nos dias que passam, mas na capacidade de guardar, com carinho, o melhor de cada dia.