Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com (Foto: Divulgação)
Existe uma pergunta que quase ninguém faz a quem chegou ao topo: quanto de você ficou pelo caminho? Entre o que o mercado esperava, o que a família projetou e o que os concorrentes faziam, quantas escolhas foram suas de verdade, e quantas foram tentativas de parecer com alguém? O sucesso tem dessas: dá para construir um império inteiro morando fora de si.
Chegamos à sétima postura. Falamos do sim que renuncia, do olhar para o que está certo, do palpite que corrói, da responsabilidade que move, da presença e da palavra que cria. Hoje quero falar da postura que sustenta todas as outras: a liberdade de ser você.
Comece pelo “ladrão” mais discreto que existe: a comparação. Ela é o que mais nos tira do caminho de ser quem somos. O faturamento do concorrente, a empresa do amigo que cresceu mais rápido, o estilo de liderança que está na moda. As pessoas servem de exemplo, sim, e é legítimo olhar para quem chegou lá e pensar: se ele conseguiu, eu também consigo. Mas exemplo é referência, não molde. Você é um ser único, e está nesta vida com o propósito de ser você mesmo. Quando a escolha nasce da comparação, você renuncia exatamente ao que não podia: a si, ao seu DNA, ao seu propósito enquanto ser humano, enquanto empresário.
E repare no custo invisível disso no comando de uma empresa, porque ele é dos mais profundos. A comparação gera tristeza, e uma pessoa triste não realiza. Um líder copiando estratégia alheia conduz o negócio para um lugar que não é dele, com uma força que não é dele. E tem o custo que atravessa gerações: o fundador que nunca teve liberdade de ser quem é dificilmente concede essa liberdade ao sucessor. Exige do filho que seja a sua cópia, e depois se frustra porque a cópia não tem a força do original. Quantas sucessões fracassam não por falta de preparo, mas porque o sucessor passou a vida tentando caber num molde, em vez de ser lapidado no próprio talento? Legado não é clonar quem veio antes. É mapear o que nos trouxe até aqui, honrar a história, liberar os nós do passado e viver o hoje. É liberar quem vem depois.
O livro mais lido do mundo guarda essa cena. Antes de Davi enfrentar Golias, o rei Saul vestiu o menino com a própria armadura: capacete, couraça, espada. Está em 1 Samuel, capítulo 17, versículos 38 e 39, e a resposta de Davi atravessa os séculos: “Não posso andar com isto, pois nunca o usei. E Davi tirou aquilo de sobre si.” Foi com a funda e as cinco pedras do riacho, com o que era dele, que Davi venceu o gigante. A armadura que protegeu uma geração aprisiona a seguinte. Todo fundador, um dia, decide o que entrega ao sucessor: a sua armadura ou a liberdade de escolher as próprias pedras, tomando a força do legado dos que vieram antes.
Agora, a chave que o autoconhecimento entrega, e que aqui no nosso Universo InspireAção trabalhamos todos os dias: tudo em você tem dois lados, o lado luz e o lado sombra. Aquilo que você julga ser o seu pior defeito talvez seja a sua melhor qualidade esperando direção. Você fala demais? O lado sombra confunde as pessoas; o lado luz é um comunicador que alcança qualquer público. Você é duro, autoritário? O lado sombra é a inflexibilidade que machuca; o lado luz é o posicionamento que dá segurança, a palavra em que as pessoas acreditam. O trabalho de quem lidera não é excluir características para caber numa imagem. É conhecer cada uma delas e escolher, conscientemente, com qual lado vai operar. Isso é governar a si mesmo, e nós vimos desde a primeira postura: quem não governa a si não governa nada. Isso é a Governança Humana, cada um no seu lugar de potência.
E aqui a série fecha o seu círculo. Abrimos com “cada sim, uma renúncia”. Encerramos com a verdade inteira: cada escolha, uma renúncia. Toda escolha que você faz hoje planta a colheita de amanhã, e escolher é sempre abrir mão. Quem escolhe ser os outros renuncia a si. Quem escolhe ser você renuncia aos aplausos fáceis, e colhe a única coisa que nenhum concorrente pode copiar: a sua essência conduzindo o seu legado. Melhores decisões nascem daí, de alguém consciente de quem é. E é essa consciência, no fim das contas, o patrimônio que nenhum balanço mostra. É a sua essência que transborda no seu negócio, e traz perenidade que tanto almejamos nas empresas.
Nesta semana, ligue o botão da percepção e observe: em quais decisões você está escolhendo a partir da comparação, para parecer, e em quais está escolhendo a partir de quem você é? Observe também o que você exige de quem vai suceder: espaço para ser, ou molde para caber? Valide no seu maior laboratório, que é a sua vida e a sua empresa.
E como nosso foco é progredir, vamos juntos?
Escolha a característica sua que você mais tentou esconder ou corrigir na vida, aquela que sempre pareceu defeito. Escreva o lado sombra dela e, ao lado, o lado luz. Depois responda: como eu uso o lado luz dessa característica, com intensidade, nesta semana? Esse é o movimento de quem para de se comparar e começa a se lapidar. Porque quem cuida da relação prepara a sucessão, e a primeira relação de todas é a sua com quem você é.
Seguimos juntos, usando a Inteligência do Amor como guia para cada uma das nossas decisões, porque queremos um eu melhor, as pessoas à nossa volta melhores, um mundo melhor.
Vamos juntos?
Porque juntos somos +
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Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com