Cleide Semenzato é assistente social e educadora. Escreve a partir da escuta cotidiana de histórias reais, refletindo sobre vínculos, afetos e os desafios das relações no mundo contemporâneo. (Foto: Divulgação)
Existe uma fase da vida em que o corpo começa a conversar com a gente de um jeito diferente. O joelho dá sua opinião antes mesmo de levantarmos da cadeira. A memória, vez ou outra, esconde o nome de alguém que conhecemos há anos. Os cabelos mudam de estratégia sem consultar ninguém e levantar-se rapidamente já não é exatamente um movimento, é quase uma negociação. A gente rir talvez seja importante porque envelhecer também é aprender a não levar tão a sério aquilo que antes parecia definitivo. Chega um momento em que descobrimos que não precisamos vencer todas as discussões, nem convencer todo mundo, muito menos provar o nosso valor o tempo inteiro. Alguns troféus que passamos a vida tentando conquistar simplesmente perdem o brilho. O tempo vai nos ensinando, às vezes com delicadeza, outras vezes na marra, que presença vale mais do que pressa. E então o cotidiano começa a ganhar outro significado. Um café deixa de ser apenas café e pode ser encontro, conversa ou as lembranças, aquele momento em que duas pessoas se sentam à mesa sem necessidade de preencher o silêncio. As amizades também mudam de lugar dentro de nós, pois as antigas tornam-se quase patrimônio afetivo. São pessoas que atravessaram nossas diferentes versões como a juventude, os sonhos, as escolhas equivocadas, as conquistas e as perdas. Uma amizade que permanece ao longo dos anos é uma das formas mais bonitas de resistência ao tempo. E o amor também amadurece, já não precisa necessariamente fazer barulho. Às vezes, manifesta-se numa pergunta simples que podem carregar um cuidado imenso e até a ideia de aventura se transforma. Uma noite inteira de sono passa a ser uma pequena celebração e uma alegria genuína. Viajar significa também lembrar dos documentos, dos horários e de tudo aquilo que não podemos esquecer em casa. Mas há uma aventura ainda maior que é continuar acreditando na vida depois de conhecer as perdas. Chega também uma idade em que algumas cadeiras ficam vazias, os amigos partem e as pessoas que amávamos deixam de atender ao telefone, bem como, algumas histórias terminam antes do que gostaríamos. E, mesmo assim, continuamos marcando encontros, comemorando aniversários, planejando viagens, plantando flores, rindo de histórias que já ouvimos muitas vezes e fazendo planos, não porque ignoramos a finitude, mas porque aprendemos que ela não pode ser a única coisa que define a nossa existência. Talvez seja essa uma das grandes sabedorias que chegam com o tempo que é compreender que viver não significa apenas acrescentar anos à vida, mas acrescentar vida aos anos. É, de certa maneira, diminuir o barulho e começar a perceber que muitas das coisas que realmente importam sempre foram pequenas demais para aparecer nas fotografias oficiais da nossa vida. O cheiro de café pela manhã, uma conversa que se prolonga sem pressa, uma mesa onde, apesar de tudo, alguém continua guardando um lugar para nós. Não precisamos controlar o tempo. Depois de tantos anos tentando acompanhá-lo, descobrimos que ele não precisa mais correr, ele pode sentar conosco à mesa. E, enquanto tomamos um café, talvez nos ensine que a vida está naquilo que conseguimos amar, cuidar, compartilhar e agradecer enquanto caminhamos. No fim, talvez amadurecer seja olhar para trás sem querer voltar, olhar para frente sem tanta pressa e conseguir dizer, com serenidade que ainda há vida aqui. E eu quero vivê-la.