Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Há momentos na vida em que precisamos diminuir o volume do mundo para conseguir ouvir aquilo que nossa própria alma já vem tentando nos dizer há muito tempo. Vivemos cercados de expectativas. O que devemos fazer, o que os outros esperam de nós, qual comportamento será aprovado, etc. E, muitas vezes, nessa tentativa de corresponder a tudo e a todos, vamos nos afastando de nós mesmos até que um dia percebemos que passamos tempo demais pedindo licença para ser quem somos. Dizemos “sim” quando, por dentro, tudo em nós pede um “não” e, pouco a pouco, vamos nos encolhendo para caber na expectativa alheia. O problema é que ninguém consegue viver indefinidamente contra a própria consciência e é ali que sabemos quando uma escolha nos trouxe paz e quando nos afastou daquilo que verdadeiramente acreditamos. Por isso a paz interior seja um dos termômetros mais honestos da existência, não porque toda decisão que traz paz seja necessariamente fácil, mas porque existe uma diferença entre sofrer por uma escolha consciente e sofrer por ter traído aquilo que sabíamos ser verdadeiro. Às vezes, fazer o que é certo decepciona alguém. Há pessoas que se acostumaram tanto com determinada versão de nós que, quando mudamos, estabelecemos limites ou começamos a dizer “não”, interpretam isso como egoísmo, frieza ou ingratidão, confundimos humildade com submissão. Ser fiel à própria consciência não significa ignorar os outros, mas, significa não abandonar a si mesmo para ser aceito por eles. O respeito próprio reconhece que também somos responsáveis pela maneira como cuidamos da nossa vida, dos nossos limites e daquilo que acreditamos. Se acreditamos que Deus nos concedeu a capacidade de escolher, pensar, discernir e assumir responsabilidades, não podemos entregar permanentemente essa escolha à opinião alheia. A consciência é esse espaço íntimo onde razão, valores, experiências e espiritualidade se encontram. Nem sempre teremos respostas imediatas. E tudo bem. A vida não é uma estrada perfeitamente sinalizada. Há momentos em que precisamos parar, respirar, silenciar e olhar para dentro antes de decidir qual caminho seguir, aprender a escutar a própria voz sem transformar essa escuta em uma desculpa para não ouvir ninguém porque autenticidade é ter coragem de viver de acordo com aquilo que reconhecemos, em consciência, como verdadeiro e justo. Às vezes, ser fiel à nossa essência vai significar pedir desculpas. Outras vezes, estabelecer limites. Em algumas situações, permanecer. Em outras, partir. Algumas escolhas exigirão coragem para dizer “sim”; outras, coragem ainda maior para dizer “não”. E haverá quem não compreenda. Tudo bem. O que podemos, entretanto, é cuidar da intenção com que as fazemos e da responsabilidade com que assumimos suas consequências. A aprovação dos outros é passageira, mas a consciência nos acompanha para o travesseiro e para o silêncio da noite e, quem sabe, seja justamente nesse silêncio, quando finalmente baixamos o volume do mundo para conseguir ouvir Deus falando através da nossa própria consciência.