Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Talvez, nos tempos de hoje, encontrar alguém tenha se tornado uma atitude contracultural, uma excentricidade e não porque as pessoas tenham desaparecido, mlas elas estão por toda parte, nas telas, nas fotografias, nas mensagens, nos grupos, nas redes, nos encontros virtuais. Estamos permanentemente conectados a uma multidão. Digo isso porque, para encontrar de verdade, talvez seja preciso ser um pouco “esquisito” como desligar o celular para conversar olhando nos olhos, ligar em vez de mandar uma mensagem, aparecer na casa de alguém levando um bolo sem precisar de convite especial. Perguntar “como você está?” e realmente esperar a resposta. Lembrar do aniversário de alguém sem depender da notificação do facebook. Parece estranho? Talvez seja. Vivemos um tempo em que conseguimos falar com quase todo mundo, o tempo inteiro, mas nem sempre conseguimos estar verdadeiramente com alguém. Mandamos corações, flores, abraços e mensagens prontas no aniversário de quem amamos e compartilhamos o mesmo cartão de Natal com dezenas de pessoas ao mesmo tempo e reagimos com um emoji em diversas circunstâncias da vida, inclusive como no recebimento de uma notícia de falecimento de alguém. O problema começa quando confundimos comunicação com encontro. Há uma grande diferença, pois que, encontro exige presença que não cabe inteira em uma tela. Lembro de como era quando alguém aparecia na nossa casa sem avisar, era uma surpresa super agradável. As conversas não precisavam ser agendadas, a pessoa aparecia na porta e a gente já estava colocando a água do café para ferver, as belas histórias contadas sem pressa, de frente um para o outro. Hoje, isso parece quase um comportamento vintage. Nem o vizinho encontramos mais. Mas talvez exista alguma sabedoria nesse “vintage” que estamos perdendo, pois, encontrar é dizer ao outro: “eu escolhi estar aqui com você e isso é muito diferente de simplesmente aparecer na lista de contatos. O encontro começa quando começamos a enxergar a pessoa e não o perfil dela. Aquele mantra da nossa mãe vale agora: “Você não é igual a todo mundo”. Essa poderia ser uma espécie de oração para os nossos encontros porque encontrar alguém é justamente reconhecer a sua singularidade. Nestes tempos acelerados, andamos rápido demais, respondemos rápido demais. Julgamos e condenamos rápido demais, cancelamos rápido demais as pessoas. Mas pessoas são muito maiores do que seus recortes. Penso que estamos precisando recuperar uma certa “esquisitice”. A esquisitice de aparecer, de telefonar, de cozinhar alguma coisa e levar para alguém, de visitar e cultivar relações sem plateia que não precisam ser exibidas para serem verdadeiras criando possibilidades de encontros. Então, o convite é para que nos “esquisitemos” mais, que sejamos mais esquisitos. E que a nossa esquisitice seja, então, uma forma bonita de viver encontros verdadeiros e não virtuais e descartáveis, mas aqueles encontros fabulosos que deixam alguma coisa de nós no outro e alguma coisa do outro em nós. Afinal, a vida não é feita das pessoas que conseguimos alcançar, mas daquelas que realmente conseguimos encontrar.