Mudança de horários aprovada pela Prefeitura no começo de maio e alterações de rotas deixaram munícipes sem opções
Ônibus da cidade tiveram os horários mudados no começo do ano e os usuários estão insatisfeitos Foto: Prefeitura de Votuporanga
Da redação
Entre fevereiro e maio deste ano, a Prefeitura de Votuporanga, junto da empresa Itamarati, concessionária de transporte público na cidade, realizaram uma série de mudanças importantes. Em nome da eficiência e pontualidade, duas linhas foram modificadas para atender mais bairros e o horário de todas as linhas que rodam na cidade sofreram modificações.
Em fevereiro, após rumores de que a linha 3 – Colinas iria ser extinta, foi anunciado que o atendimento ao bairro seria incorporado à linha 6 – Pozzobon. Já a linha 3 passou a se chamar Parque Esplanada. A segunda alteração ocorreu em março, quando houve um adiantamento de 10 minutos da primeira viagem de todas as linhas do dia e um atraso pelo mesmo tempo nos horários de volta para casa. A grande mudança, porém, veio em maio, quando foi anunciado que todas as viagens teriam os horários alterados a partir do dia 18, por pedido da Itamarati.
De acordo com o próprio secretário de Trânsito, Marcelo Zeitune, o objetivo da alteração era “garantir mais eficiência, segurança operacional e maior pontualidade no transporte coletivo.” Porém, o que aconteceu com essa série de mudanças foi o descontentamento dos trabalhadores que utilizam ônibus para chegar aos seus locais de trabalho.
O jornal
A Cidade conversou com algumas usuárias do transporte público da cidade que se sentiram prejudicadas pelas mudanças. Rosalina da Silva, de 57 anos, é empregada doméstica e mora no bairro Belo Horizonte, mas trabalha na rua Oiapoc. Segundo ela, antes da mudança, ela saía do trabalho e conseguia pegar o ônibus das 16h da linha 1 - Belo Horizonte, que a levava para casa. Porém, com a extinção deste horário, ela afirma que “ou eu corro com o serviço para pegar o das 15h20, que eles colocaram no lugar, ou eu vou ter que esperar o das 17h30 para poder ir embora.”
Mas a indignação dela não é somente na própria situação. A doméstica conta que as pessoas que pegam o mesmo ônibus que ela até o centro, de manhã, e precisam pegar uma segunda condução até o trabalho, agora precisam esperar uma hora entre as duas. “O pessoal tá tudo reclamando que eles têm que ficar uma hora esperando a circular, das 6h até 7h pra pegar outra condução”, afirma.
Eliana Brocco, também com 57 anos, conta das dificuldades enfrentadas por ela e por outras pessoas que pegam a mesma linha. “O ônibus está vindo lotado, as pessoas idosas estão vindo em pé, penduradas dentro do ônibus. Está dando até dó. Isso porque não tem outro horário depois”, conta. Ela aponta para o fato de, no horário atual, as pessoas que pegam o primeiro horário da linha 7 - Santa Amélia terem problemas com a extinção do horário das 7h50 da linha 2 – Eldorado. Agora o horário mais próximo é 8h40.
Ela também conta de vários munícipes que pararam de pegar o segundo ônibus para o trabalho e decidiram ir a pé. “As pessoas, que vem no mesmo ônibus que eu, estão indo a pé trabalhar. Nós pegamos o ônibus lá às 7h30, chega às 8h na Matriz. Para a gente que quiser ir trabalhar só vai ter ônibus às 9h”, explica.
Trabalhando em um condomínio da zona Sul da cidade há mais de uma década, Eliana nunca tinha tido problemas tão grandes com o transporte público. “Faz 15 anos que eu trabalho aqui no condomínio e sempre foi horário normal. Daí faz agora um mês que eles mudaram, não avisaram ninguém, mudaram do nada, não falaram nada. Nós chegamos para trabalhar e não tinha ônibus. Para a gente vir, para a gente descer, o povo está tendo que vir tudo a pé”, relata.
Uma terceira mulher também falou à reportagem sobre suas dificuldades. Solange Cavalcantti, de 58 anos, também trabalha num condomínio na zona Sul, e explica que tem duas escolhas difíceis. “Se a gente pegar o de 5h40, que passa lá no Pacaembu, a gente chega às 6h na praça. Aí a gente fica esperando até 7h, entendeu? Daí a gente chega aqui 7h10 e os patrões falam que é muito cedo, né, porque o horário é 8h. E se a gente for pegar o das 7h, que vem pra praça, tem que esperar o de 8h40 e eu chego após nove horas”, conta, indignada. Para ela, os horários das linhas Belo Horizonte e Eldorado têm que ser mudados.
Outra reclamação é sobre o horário da volta. Segundo Solange, antes da mudança ela saía do serviço, chegava na Matriz com um ônibus e já embarcava no próximo. “O horário de ir embora, de primeiro, era 17h, agora passa aqui, 17h10. Aí você vai pra praça, fica lá até 18h40 esperando. Eu chego em casa depois das 19h”, reclama.
Tanto Rosalina quanto Eliana afirmam que entraram em contato com o secretário de Trânsito sobre os horários. Segundo a primeira, o secretário “ficou de resolver, falou pra gente que vai resolver, e ficou por isso também.” Já a segunda conta que a resposta foi “eu só adiantei 10 minutos.”
Falta de transporte com cidades da região ameaça comércio de Votuporanga
A falta de transporte público entre Votuporanga e cidades pequenas da região pode comprometer o acesso de pessoas de cidade menores ao comércio local. Pessoas que poderiam vir à cidade não o fazem por não terem veículo próprio e sofrerem com a falta de transporte coletivo.
O jornal
A Cidade buscou informações e descobriu que, das pequenas cidades da região, apenas Valentim Gentil tem uma linha diária de ônibus que conecta as duas cidades. Munícipes de outras localidades, como Álvares Florence, Cardoso e Nhandeara, dependem de carros ou motos para visitar a cidade.
Tirando a vinha Valentim Gentil, os ônibus da Itamarati, que fazem o intermunicipal, rodam apenas no eixo São José do Rio Preto – Santa Fé Do Sul, atendendo a Fernandópolis, Jales e Tanabi.
Washington Morais, ouvinte da rádio
Cidade 94,7 FM, conta que a linha Votuporanga – Araçatuba foi removida durante a pandemia de Covid, dificultando “a vida de muita gente, tanto nossa daqui de Votuporanga e Araçatuba, quanto o pessoal de Nhandeara, Monções, Lourdes, Turiúba e Brejo Alegre.”
Posicionamento da Prefeitura
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura com algumas perguntas sobre o transporte de passageiros da cidade. Sobre o planejamento feito para as mudanças, o Executivo municipal alegou que “A revisão dos horários foi realizada com base em estudos operacionais que consideraram fatores como demanda de passageiros, tempo de percurso das linhas, condições de tráfego e a necessidade de adequação da rede de transporte como um todo. No entanto, toda alteração operacional pode gerar impactos pontuais na integração entre linhas, especialmente nos horários de maior movimento. A Secretaria Municipal de Trânsito, Transporte e Segurança segue monitorando o funcionamento do sistema e analisando as manifestações dos usuários para avaliar eventuais ajustes que possam contribuir para a melhoria do atendimento.”
Questionados se decisões como essas mudanças contribuem para o menor número de pessoas usando ônibus, a Prefeitura alega que “A redução no número de passageiros do transporte coletivo é uma realidade observada em diversos municípios brasileiros e está associada a diferentes fatores, como o crescimento do transporte individual, mudanças nos hábitos de deslocamento da população e novas modalidades de trabalho. As alterações promovidas na operação do sistema têm como objetivo garantir sua sustentabilidade e eficiência, buscando atender ao maior número possível de usuários dentro das condições operacionais existentes e preservando a continuidade do serviço prestado à população.”
Também foi respondido as reclamações apresentadas diretamente ao secretário de Trânsito. “Todas as demandas apresentadas pelos usuários são registradas e analisadas pela equipe técnica da Secretaria. As reclamações relacionadas a horários, integrações e itinerários estão sendo acompanhadas e avaliadas de forma contínua. Eventuais adequações dependem de estudos técnicos e operacionais que comprovem sua viabilidade, sempre considerando o equilíbrio do sistema e a manutenção do atendimento às demais regiões da cidade.
Por último, sobre a mudança no atendimento ao bairro Colinas e a mudança sem a criação de uma nova linha, a Prefeitura afirma que “A reorganização da linha que atende o bairro Colinas foi realizada considerando o crescimento urbano registrado na região e a necessidade de ampliar e otimizar a cobertura do transporte coletivo, incluindo o atendimento ao Parque Nova Esplanada. A Secretaria acompanha permanentemente a evolução da demanda de passageiros em todas as regiões do município. Havendo comprovação técnica da necessidade e viabilidade operacional, poderão ser estudadas futuras adequações, ampliação de horários ou outras medidas que contribuam para aprimorar o atendimento prestado à população.
Sobre a questão do transporte interurbano, ela observou que “diferentemente das linhas urbanas, as linhas suburbanas e intermunicipais ultrapassam os limites territoriais do município e dependem de regulamentação e autorização dos órgãos competentes do Estado. Como centro regional, Votuporanga sempre incentivou a manutenção e a operação dessas linhas, inclusive disponibilizando sua estrutura do Terminal Rodoviário para recebê-las. A redução e paralisação de linhas suburbanas tem sido uma realidade observada em diversas regiões do Estado de São Paulo, e iniciativas de incentivo por parte dos governos estadual e federal seriam importantes para fortalecer esse tipo de transporte e ampliar a oferta de atendimento à população regional.”