Cleide Semenzato é Assistente Social, educadora e escreve a partir da escuta cotidiana de histórias reais, refletindo sobre vínculos, afetos e os desafios das relações no mundo contemporâneo. (Foto: Divulgação)
Há alguns dias, me peguei reclamando do cansaço tantas coisas a realizar em um só tempo que me deu aquele esgotamento que parecia não passar. A sensação era de que os dias estavam pequenos demais para caber tantas coisas. Foi então que conversando com uma amiga, ela me fez a seguinte pergunta: “Não dá para tirar alguma coisa da sua rotina, amiga?” Pensei por alguns segundos, fiz uma verdadeira peneira mental, analisei o trabalho, a família, os amores, os projetos, os compromissos, as causas em que acredito e milito e as responsabilidades que assumi e a resposta veio sincera: “Não. Hoje não dá.” Ela sorriu e respondeu algo que mudou completamente a minha forma de enxergar o cansaço. Disse: “Eu concordo com você. Tudo o que faz hoje é importante, mas você não é uma pessoa que está ocupada com coisas vazias, pois, você carrega propósito. Então talvez o problema não seja a quantidade, talvez seja o ritmo.” Ela continuou: “Você não é um carro de passeio, mas é uma carreta carregada. Uma carreta leva muita gente, muitos sonhos, muitos projetos e muitas responsabilidades e não adianta querer andar na velocidade de um carro pequeno. O problema não é estar carregada, mas é querer correr como quem está leve”. Confesso que fiquei em silêncio. Naquele instante percebi a bobagem de me cobrar tanto e conclui que uma carreta não foi feita para correr, mas para transportar aquilo que é valioso e quanto mais preciosa é a carga, maior precisa ser o cuidado. Então entendi que desacelerar significa proteger aquilo que levamos. Vivemos numa sociedade que valoriza a pressa e parece que chegar primeiro virou sinônimo de sucesso. Entretanto, quase nunca perguntamos: chegar primeiro para quê? Há pessoas que percorrem a vida em alta velocidade, mas chegam sozinhas, outras levam mais tempo, porque carregam filhos, pais, amigos, equipes, projetos sociais, comunidades, sonhos coletivos, cargas preciosas, pois carregam pessoas. Essas não podem dirigir como se estivessem vazias. A conversa daquela manhã me ensinou um princípio que pretendo levar para a vida de que não preciso medir meu caminho pelo tempo da viagem, mas pelo impacto da carga que escolhi transportar. Isso não significa romantizar o excesso de trabalho porque o cansaço continua sendo um sinal de alerta e sempre que possível, precisamos reorganizar prioridades, dividir responsabilidades para cuidar da saúde antes que perecemos. Porém, existem fases da vida em que ainda não é possível retirar parte da carga. Nesses momentos, talvez seja necessário ajustar a velocidade para que a carreta respeite seu ritmo e chegue ao destino sem tombar no meio do caminho. Hoje continuo com muitos compromissos e continuo acreditando em cada um deles. Mas aprendi que meu corpo tem um ritmo e lutar contra ele não me fará chegar melhor, apenas mais cansada. Talvez essa reflexão também faça sentido para você. Se a vida parece pesada demais, antes de se culpar por não conseguir acompanhar a velocidade dos outros, faça uma pergunta: Você está dirigindo um carro de passeio ou uma carreta cheia de vidas, responsabilidades e propósito? O segredo não é acelerar, mas aprender a conduzir, com serenidade, o valor que Deus e a vida confiaram às nossas mãos.