No último dia 17, alguns dos maiores clubes do Brasil publicaram, em seus sites e redes sociais, um texto em resposta à possibilidade da proibição das bets e jogos do tigrinho via MP do governo Lula. No meio do texto existe uma clara ameaça do que os clubes irão fazer caso isso seja implementado: cortar futebol feminino e a formação de jogadores.
Além disso, o que os clubes e federações estão realmente falando, na verdade, é que o futebol brasileiro pode acabar se a medida for pra frente. Honestamente? Que assim seja.
Não é possível que uma instituição que exista há mais de 100 anos, que gerou cinco times campeões da Copa do Mundo, que fez surgir craques como Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Garrincha, Romário e muitos outros, precise acabar caso não possa depender de algo que está, literalmente, tirando comida da mesa do povo brasileiro.
E não, não estou usando a palavra literalmente de maneira errada. Um estuco recente indica que as bets tiraram mais de R$ 160 bilhões das famílias brasileiras. Dinheiro esse que poderia ser usado nos mercados, nas lojas de centro, nas lanchonetes e restaurantes. Todo esse dinheiro foi para os bolsos de pouquíssimas pessoas, tanto dentro quanto fora do país.
A questão de o futebol brasileiro somente ser viável por causa das bets é a mesma situação de um negócio somente ser viável via exploração de funcionários: se for esse o caso, nenhum dos dois deveria existir.
Sempre fui muito crítico de como os clubes brasileiros, em sua grande maioria, tratam suas categorias de base. Na visão dos donos e presidentes, os juniores são feitos para ganhar troféus. Uma visão extremamente errada. Quando um jovem de 13, 14, 15 anos está nas categorias de base de um clube, ele tem que aprender a jogar futebol, aperfeiçoar os fundamentos, como dribles, domínio, passe, desarme e finalização, para quando subir pro profissional, ele possa fazer bonito e, somente então, ser pressionado para ganhar.
A La Masia, renomada academia do Barça, consegue gerar uma quantidade enorme de prodígios não por força-los a ganhar desde cedo, mas por ensinar a eles uma filosofia de jogo desde novos. E então, quando eles estiverem prontos, subi-los para o profissional e fazerem a diferença.
O método brasileiro é o exato contrário. Por aqui, os jovens são ensinados que ganhar é o principal sempre e, quando uma estrela se mostra maior que os outros, o jovem sobe e é vendido logo em seguida. Os clubes então usam o dinheiro para comprar jogadores caros e já formados, às vezes à beira da aposentadoria.
E não é só futebol de base que está errado. No interior, os clubes preferem contratar jogadores de qualquer lugar do Brasil a tentar criar um vínculo com a comunidade onde estão e tentar achar jogadores locais. Times pequenos de segunda ou terceira divisão paulista torcem o nariz para jogadores amadores, como se eles próprios estivessem na Série A do Brasileirão. A diferença de um jogador bom de A3 paulista e de um amador muito bom é falta de oportunidade.
É preciso entender que futebol não é somente sobre ganhar e perder, cair de divisão ou ganhar um título. É sobre pertencimento. É sobre comunidade. Um clube de futebol deveria representar uma comunidade, seja uma cidade, seja um bairro. Ele deveria unir as pessoas injetando nelas um senso de pertencimento.
Mas, atualmente, isso é somente uma lembrança de um tempo antigo. O futebol moderno é um negócio para dar lucro para poucas pessoas. E pertencimento não dá lucro, comunidade não dá lucro. Mas bets dão lucro.
Se esse tipo de futebol for realmente acabar por causa do fim das bets, então eu ficarei feliz.