Grazi Cavenaghi (Foto: Divulgação)
Quem está no topo conhece essa cena. O resultado não veio, e a sala inteira tem uma explicação: o governo mudou a regra, a economia esfriou, o cliente não pagou, o time falhou. Todas verdadeiras, talvez. E o problema continua ali, na sua mesa, esperando por alguém que o assuma.
Na primeira postura, falamos do sim que renuncia. Na segunda, do olhar para o que está certo. Na terceira, do palpite que corrói. Hoje quero falar da postura que separa quem apenas reage de quem realmente transforma: assumir a responsabilidade e libertar-se da culpa.
Primeiro, uma distinção que muda tudo: você não tem culpa de nada, mas é responsável por todas as suas escolhas, por tudo o que acontece na sua vida e no seu negócio.
Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa. A culpa aprisiona: prende você no que já aconteceu e paralisa a decisão. A responsabilidade move: coloca você no seu lugar de potência e faz você perguntar: isso é meu? O que eu faço com isso?
Ah, mas é o governo. Certo, e o que você pode fazer do seu lugar? Mas é a economia. Você é economista? Não. Então o que você pode fazer com a economia que aí está? O cliente não pagou. E quem escolheu o cliente? A análise de crédito foi do seu time, logo, sua. Não estou dizendo que o cenário não existe. Estou dizendo que, enquanto você explica, justifica e dispersa energia fora do seu Círculo de Influência, ninguém decide. E a pergunta que devolve o seu comando é sempre a mesma: o que eu posso fazer com essa situação no meu lugar?
Pensar no coletivo e contribuir para um mundo melhor faz parte, sim. Mas toda transformação começa pelo nosso lugar. De pouco adianta gastar energia com problemas sobre os quais você não tem influência enquanto existe um profissional da sua empresa, um parceiro, um cliente ou um familiar ao seu lado precisando da sua presença, da sua liderança ou da sua decisão. A sabedoria está em reconhecer onde a sua energia realmente pode produzir transformação.
Esse princípio foi apresentado por Stephen Covey, em Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, ao diferenciar o Círculo de Preocupação do Círculo de Influência. O primeiro reúne tudo aquilo que ocupa a nossa mente, mas que está fora do nosso alcance. O segundo reúne aquilo sobre o qual podemos agir. Quanto mais energia dedicamos ao nosso Círculo de Influência, maior ele se torna. Liderar é exatamente isso: deixar de desperdiçar energia procurando culpados e direcioná-la para aquilo que realmente está ao seu alcance. É nesse espaço que nasce a responsabilidade e que os resultados começam a mudar.
Repare no custo invisível quando essa consciência falta na liderança, porque ele se multiplica por toda a empresa, em silêncio. Multiplicam-se as justificativas, as desculpas e a energia dispersa em preocupações sobre as quais nada podemos fazer. O líder que terceiriza as causas forma uma empresa inteira que terceiriza as causas. A reunião de resultados transforma-se em um inventário de justificativas: cada um aponta para fora, e o problema fica sem dono.
Existe um custo ainda mais desafiador: o sucessor aprende o que vê. O filho, o diretor ou qualquer profissional que cresce ouvindo o líder culpar o cenário herda, junto com o patrimônio, essa postura. E patrimônio nas mãos de quem não atua no seu Círculo de Influência, assumindo a responsabilidade pelo que lhe cabe, dificilmente atravessa gerações.
O livro mais lido do mundo nos apresenta esse mesmo princípio. Na parábola dos talentos, registrada em Mateus, capítulo 25, versículos 14 a 30, Jesus conta a história de um senhor que entrega diferentes talentos aos seus servos antes de viajar. Quando retorna, não pergunta como estava a economia, nem o que os outros fizeram. Pergunta apenas o que cada um fez com aquilo que recebeu. O servo que enterrou o talento chegou com uma justificativa. Os outros chegaram com resultados. A vida faz a mesma pergunta a quem lidera: o que você fez com aquilo que foi colocado nas suas mãos?
Você, que faz parte do Universo InspireAção, conhece uma das nossas frases clássicas: a vida é real, e não ideal. Todos os dias acordamos para resolver problemas. Eles apenas mudam de tamanho à medida que crescemos. A diferença nunca esteve na ausência de problemas, mas no modo como você se coloca diante deles. A culpa aprisiona porque mantém o olhar preso ao que já aconteceu. A responsabilidade liberta porque pergunta: o que posso fazer com isso agora?
É essa postura que fortalece o patrimônio que nenhum balanço mostra: uma cultura em que todos os profissionais assumem a responsabilidade pelo que lhes cabe, colhem o ônus e o bônus das próprias escolhas e honram o seu lugar. É dessa forma que empresas constroem resultados consistentes e legados duradouros. E essa cultura nasce no topo: quando o líder assume a responsabilidade pelas próprias escolhas, ele autoriza toda a organização a fazer o mesmo.
Nesta semana, ligue o botão da percepção e observe: nas conversas sobre resultados, quantas explicações apontam para fora e quantas apontam para o que está ao seu alcance? Observe primeiro em você, depois no seu time. Valide no seu maior laboratório, que é a sua vida e a sua empresa.
E como nosso foco é progredir, vamos juntos?
Escolha o problema que você mais explica e menos resolve, aquele que já tem justificativa de cor. Coloque-se no seu lugar de potência e responda por escrito: o que, disso, é meu? E qual é o primeiro movimento ao meu alcance nesta semana? Depois faça o movimento. Pequeno que seja, ele devolve a você o comando que a justificativa rouba. Porque quem cuida da relação prepara a sucessão, e a primeira relação a cuidar é a sua com a própria responsabilidade.
Seguimos juntos, usando a Inteligência do Amor como guia para cada uma das nossas decisões, porque queremos um eu melhor, as pessoas à nossa volta melhores, um mundo melhor.
Vamos juntos?
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Grazi Cavenaghi é especialista em Liderança Integral - grazicavenaghi@inspireacao.com