Assim como muitos brasileiros, estamos assombrados com os fatos e comportamentos que observamos entre trabalhadores e seus representantes, em todos os níveis.
Desde pequeno, ouvia adultos afirmarem que o lar dos bandidos, criminosos e corruptos eram as favelas — hoje denominadas “comunidades” — como se essa mudança de nome tivesse o poder de transformar a visão deturpada que a sociedade criou sobre quem mora em locais inadequados à vivência humana digna.
A moradia de muitos brasileiros, daqueles que conseguiram alugar um barraco do “locador bandido”, é o espaço que lhes é viável com os recursos que conquistam com seu trabalho.
Mas o bandido que aluga mansões luxuosas e desvia recursos destinados à moradia popular, ou mesmo os parcos vencimentos das aposentadorias, esse não é atingido pelo “bandido da comunidade”. Talvez por fazer parte da mesma alcateia.
O morador da comunidade também paga impostos — e, proporcionalmente, muito mais do que seus representantes. Ele precisa acordar muito cedo, depois de dormir supostamente 4 a 6 horas, para enfrentar transporte lotado, que não cumpre a rota sem atrasos e o expõe a todo tipo de risco.
Já o representante conta com carros — sim, mais de um. Um para o local do exercício de sua representação e outro para deslocamentos até o município onde reside. Além disso, tem recursos para a aquisição de carro luxuoso e dois motoristas. Afinal, precisa trabalhar em jornadas que envolvem “noitadas” regadas por bebidas de elevadíssimo custo. O sofrimento da árdua missão de representar o povo exige compensações de toda ordem.
O morador da comunidade tem na mulher uma colaboradora para a renda familiar, na tentativa de garantir alimento, vestimenta e até mesmo “lazer” para ele e os filhos.
Os representantes, por sua vez, precisam contratar uma série de funcionários para realizar as “árduas e extenuantes tarefas de legislar” — inevitavelmente em causa própria. Assim dizem os “marajás” do funcionalismo.
Todos nós, brasileiros, pagamos impostos para manter as regalias presentes em todos os níveis. E quando precisamos dos serviços pagos aos representantes, somos encaminhados para as filas dos hospitais públicos — apenas um exemplo — e demais espaços de atenção à população, não é?
Quando o representante necessita de atenção à saúde, ele desvia da fila do INSS e é atendido, por direito garantido, nos melhores hospitais particulares do Brasil.
Cabe acrescentar: podemos pensar que somos nós mesmos que definimos as posições na alcateia, quando temos possibilidade de mudar o que fazemos?
Votamos nos mesmos candidatos, temos medo da mudança, alguns falam: se já está ruim melhor não mexer para não piorar.
Eu, parte da minoria, gostaria muito que fosse diferente! E me pergunto, o que estou fazendo para mudar este cenário? Tento passar nos espaços a que tenho acesso um pouco do que pode provocar questionamentos, mas sou mais um grão de areia no deserto em que vivemos.