Nestes últimos trinta anos, temos assistido a um declínio ético de nossos representantes eleitos, em todas as instâncias da gestão pública brasileira. Um declínio que, transmitido diariamente ao vivo, passou a ser oferecido às novas gerações como exemplo de comportamento.
Tomemos como marco a Constituição de 1988, ainda em vigor, embora remendada. São 139 Emendas Constitucionais e 6 Emendas de Revisão, totalizando 145 alterações até outubro de 2026, segundo o Senado. Emendar não é o problema. Toda democracia precisa corrigir rotas. O problema é o ambiente em que se emenda.
Há pelo menos quatro marcas desse ambiente que precisam ser observadas:
1. O coeficiente eleitoral. Elegemos um nome, mas quem decide quem entra é a soma dos votos da legenda. Com isso, em muitos casos, candidatos com votação individual expressiva ficam de fora, enquanto outros com votação bem menor entram puxados pelo partido. A representatividade pessoal se dilui na aritmética da legenda.
2. O que chamo de “voto de liderança”. Poucos eleitores sabem, mas as decisões decisivas não ocorrem no plenário. Ocorrem em reuniões fechadas do colégio de líderes. Ali se define o que será votado e como será votado. E se um parlamentar ousar votar contra a orientação de sua liderança, pode ser punido e até expulso do partido por infidelidade. Onde está, então, a consciência do representante?
3. O poder de pauta. O presidente de cada Casa Legislativa decide sozinho o que entra e o que não entra para discussão. Pode guardar um projeto sine die sem que jamais siga o rito democrático. É um poder absoluto sobre o tempo da democracia.
4. O comportamento em plenário. Enquanto um parlamentar discursa sobre tema relevante para a vida do povo, o plenário está vazio. Outros estão de costas para quem fala, ao telefone, rindo em rodinhas. A baderna chega, com frequência, às vias de fato. Não são eventualidades. É a rotina, transmitida ao vivo, nos rincões e no centro do poder.
Este último fato me interessa mais.
A sala do Legislativo hoje se assemelha à sala de aula que tanto criticam. A mesma sala onde docentes são desvalorizados, ofendidos e afastados por motivos absurdos, e onde se exige “disciplina” das crianças.
Há uma inversão que precisamos encarar: quem ensinou o país a não ouvir em ambientes de alta seriedade — como uma sala de aula e um parlamento — foram exatamente aqueles que dizem decidir o futuro da nação.
Não falo de causalidade mecânica. Falo de espelhamento. Quando o espaço que deveria ser o mais exemplar da escuta democrática exibe desatenção, descaso e ausência, ele legitima, por exemplo, o mesmo comportamento no chão da escola. O país aprende a não ouvir vendo quem deveria ouvi-lo.
Foram eles que tentam ensinar ou ensinaram pessoas, talvez apenas algumas.