Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Ser um engenheiro de ideias é aprender a transformar pensamentos em possibilidades, construindo novas maneiras de compreender a realidade e encontrar caminhos diferentes para situações que pareciam não ter solução. Assim como um engenheiro planeja e constrói estruturas, este trabalha com pensamentos, emoções, percepções e comportamentos para (re)construir novas possibilidades de vida deixando de reagir automaticamente e libertando as pessoas aprisionadas às imagens que construímos delas no passado. E essa reflexão tem uma aplicação muito bonita porque muitas relações poderiam ser transformadas se, em vez de repetirmos os mesmos julgamentos, criássemos experiências capazes de revelar outras possibilidades. A mudança começa com uma ideia, mas é o gesto concreto, repetido com coerência e respeito, que permite construir uma nova realidade. Quem andava com Jesus quebrava constantemente os próprios paradigmas. Não havia rotina, seus gestos e comportamentos surpreendiam de tal modo os seus discípulos que, pouco a pouco, eles foram lapidando suas personalidades. Isso é incrível! E nós, o que fazemos para surpreender as pessoas e não as bloquear? Se quisermos mudar a natureza da nossa relação com as pessoas temos que reescrever a imagem doentia que o relacionamento construiu nos territórios inconscientes da nossa memória. Só assim mudamos o roteiro de nossas vidas. Teve um tempo que participei da história de uma família em verdadeiro conflito. Certo dia, o pai pediu à filha que comprasse um buquê de flores para presentear a esposa de um amigo que fazia aniversário. Ela, mais uma vez, recusou-se a atender ao seu pedido dizendo-lhe que não tinha tempo e essa recusa deveria detonar nele o fenômeno inconsciente chamado gatilho da memória, que abriria uma janela contendo uma imagem doentia da filha e o levaria a agredi-la com palavras. O pai repetiria, mais uma vez, que a sustentava, que pagava sua faculdade e a gasolina do seu carro, e que ela não reconhecia o seu valor. Ambos sairiam, como sempre, magoados. Mas, desta vez, ele mudou de atitude. Estava aprendendo a administrar seus pensamentos e a controlar as janelas da memória. Ficou em silêncio, saiu, foi à floricultura e comprou o buquê de rosas. E sabe o que mais ele fez? Escolheu o botão de rosa mais bonito para dar à filha. Ao chegar em casa, entregou-lhe a rosa, dizendo que a amava muito. Acrescentou o quanto a filha era importante para ele. Atônita com a atitude do pai, a jovem chorou, porque acabara de descobrir alguém que não conhecia. A mudança de comportamento persistiu e foi fazendo com que, sem que a filha se desse conta, a imagem autoritária e rígida do pai começasse a ser reeditada nos arquivos inconscientes de sua memória, igualmente. Ela passou a respeitá-lo e amá-lo percebendo que, embora não soubesse se expressar, ele queria o melhor para ela. O pai, por sua vez, começou a reescrever a imagem da filha, encantando-se com suas qualidades. Não é difícil imaginar o que aconteceu, pois eles deixaram de ser dois estranhos, começaram a dividir seus mundos e a cruzar suas histórias. Hoje, são grandes amigos e se amam calorosamente. Nesse contexto, essa expressão tem um significado ainda mais profundo quando observamos que o pai se tornou alguém capaz de reconstruir a maneira de pensar, romper padrões de comportamento antigos e transformar seus relacionamentos por meio de novas atitudes enxergando sob uma nova perspectiva. A mudança foi tão notável que pensei um dia escrever sobre isso para que outros pais e filhos tivessem a mesma oportunidade de mudar seus relacionamentos. Às vezes, desejamos que o outro mude, mas continuamos oferecendo a ele exatamente a mesma versão de nós. Não podemos obrigar alguém a nos amar, confiar em nós ou reconstruir uma relação, mas podemos escolher a maneira como nos posicionamos. Isso muda tudo.