Evento ocorreu no sábado e contou com participação de Rimar Ramalho Segala, que é surdo e doutor em Linguística e Língua Português
O evento reuniu várias pessoas em um mês especial para a comunidade surda Foto: Arquivo Pessoal
Da redação
O Instituto Federal de São Paulo (IFSP), polo Votuporanga, foi palco, no último sábado, de um workshop para surdos e intérpretes de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). O evento ocorre próximo a duas datas importantes para a comunidade surda do Brasil e contou com a presença de Rimar Ramalho Segala, doutor em Linguística e Língua Português e surdo de terceira geração.
O jornal A Cidade conversou com Nadilson de Lima, que é intérprete de Libras e foi o organizador do evento. Segundo ele, a ideia do evento surgiu em 2024, quando ele começou a trabalhar com surdos de idades variadas, como crianças mais novas e pessoas mais velhas, e percebeu a necessidade dessas gerações se encontrarem para trocar experiências. “Não deu certo de realizar em 2024, nem 2025, mas quando cheguei em Votuporanga, em outubro do ano passado, eu vi que a comunidade surda é bem mais expressiva do que de onde venho. Foi um pouco difícil disso acontecer, mas eu entrei em contato com o Rimar e, especificamente em setembro, que tem datas importantes para a comunidade surda, e, com muita dificuldade, o evento aconteceu”, conta.
No dia 26 de setembro é comemorado o Dia Nacional do Surdo, que foi oficializado em 2008, por meio do Decreto de Lei Nº 11.796. Essa data específica foi escolhida porque, em 1857, nesse mesmo dia, foi fundado o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), a primeira escola de surdos no país. Já no dia 30, é celebrado o Dia Internacional do Tradutor/Intérprete. A data é comemorada em homenagem a São João Jerônimo, que tradutor original da bíblia do grego e hebraico antigo para o latim, sendo 30 de setembro a data do seu falecimento.
A ideia principal do workshop foi debater qual o lugar no mundo tanto do surdo quanto do intérprete de Libras. Para Nadilson, o intérprete não é a pessoa mais importante da relação do surdo com o resto do mundo, pois “a sociedade em si deveria entender a necessidade de se comunicar com os surdos. Não somente através de terceiros, mas que as pessoas possam aprender o básico para ter um contato mínimo com empatia e conhecimento. Na educação também, pois no passado, muitos surdos não tiveram acesso a intérpretes em sua formação, impedindo-os de participar de maneira completa do processo de aprendizado.”
A profissão de intérprete de Libras foi regulamentada em 2010, mas sofreu atualizações via Lei nº 14.704 de 2023. Até o começo do século, era comum que alunos surdos precisassem frequentar escolas específicas devido à falta de regulamentação e oferta de intérpretes para acompanha-los em salas de aula regulares. Quando eles eram presentes nas escolas regulares, sofriam com muito preconceito e dificuldade de aprendizado, ficando limitados a copiar o que os professores colocavam nos quadros.
Rimar Segala também conversou com a reportagem sobre o evento e sobre a situação do surdo no Brasil atualmente. Para ele, “mais do que apenas ‘acolher’, o que muitas vezes soa como um gesto assistencialista ou de caridade, o que precisa mudar é a forma como a sociedade nos enxerga. Não como alguém que tem uma deficiência médica ou limitação, mas como uma pessoa completa, com cultura e língua próprias, assim como se respeita um estrangeiro. Enquanto o foco estiver na falta e não na comunicação e no respeito linguístico, o desequilíbrio vai continuar.”
Tanto Nadilson, quanto Rimar reportaram um balanço positivo do workshop. Para o primeiro, o evento teve uma adesão grande, apesar das limitações, mas acredita que, nas próximas edições, com certeza terá mais participantes. Já o segundo classificou o evento como “enriquecedor”. “Vi os participantes muito abertos e dispostos a uma mudança interna: começaram a olhar para a surdez com respeito, equidade e equilíbrio. Foi um momento potente para que todos pudessem se reconhecer, trocar experiências e entender o papel de cada um nessa convivência mútua”, afirmou.