Comemorar 100 anos de vida, lúcida, cercada de carinho por familiares e amigos, na cidade que ela viu nascer, crescer e prosperar. Isso é para poucos e privilegiados. Gabriela Coelho Araújo, a dona Bela, viúva de Emídio Antônio Araújo, é uma mulher pioneira de Santa Fé do Sul, onde chegou em 1948, com o marido e o filho primogênito Nelson, pra ‘fazer a vida’ na nova fronteira de desenvolvimento agrícola que se abria na barranca do rio Paraná.
Ali, o pai de Emidio, Coronel Araújo, já se estabelecera antes para garantir a vinda do casal. Compraram um pedaço de terra pra cultivar e o coronel virou ‘lotista’ (hoje, corretor de imóveis). Em julho de 1949 o casal viu nascer o segundo filho, Edson, o Edinho Araújo. Logo vieram as duas filhas, Nelsi e Edna Mara, e, com o passar dos anos, uma legião de netos e bisnetos.
Gabriela e Emidio se casaram em Votuporanga e decidiram “fazer a vida” no sertão. Viajaram a Santa Fé num Fordinho 29, com carroceria de madeira, levando as ‘tralhas’ de casa: cama, colchões, mesa, cadeiras, um baú, talheres e roupas em malas e sacos de estopa. Depois de horas sacolejando na Estrada Boiadeira o casal desembarcou na avenida Conselheiro Antônio Prado. Ali, abririam a Casa Araújo pra vender artigos de roça aos agricultores que chegavam de todo canto. A primeira venda foi simbólica: uma lima pra amolar enxada, enxadão, foice e machado. Afinal, era preciso desbravar. A história registra que na praça central de Santa Fé, dona Bela juntou-se a um de pioneiros e assistiu, em 24 de junho de 1948, a missa campal celebrada pelo Frei Canuto e um grupo de cantoras. Um pesado cruzeiro foi erguido pelos moradores e nascia ali uma nova cidade. Ela viu tudo de perto e se emocionou.
Dona Bela vive até hoje na mesma casa, no centro da cidade, onde recebe visitas e recorda os bons tempos passados, quando tecia com esmero os vestidos das noivas do lugar. Aprecia uma boa prosa e um bom vinho – estaria aí um dos segredos da longevidade?
Entrevistei dona Bela para o livro biográfico “Edinho Araújo – 38 anos na estrada”, lançado em 2010. Na conversa, as lembranças brotavam cheias de detalhes, e os olhos dela brilhavam; mal podia conter a saudade de tempos intensamente vividos. Lembrou que nos primeiros dias os lampiões a querosene alumiavam as poucas casas de Santa Fé. A água dos poços era salobra. Carrinheiros vendiam água de córregos em barricas e tambores – era preciso ferver para consumir.
A Casa Araújo virou ponto de encontro e acolhimento. Gabriela recebia em casa as mães que chegavam de longe com seus bebês exaustos, oferecia banho e aquecia o leite para as mamadeiras no fogão a lenha. Edinho se elegeria prefeito de Santa Fé do Sul em 1976. Dona Bela esteve na linha de frente da campanha, visitou casa a casa. Viu o filho se tornar um político de projeção nacional com 12 mandatos consecutivos (cinco de prefeito, três de deputado estadual e quatro de federal, além de ter sido ministro de Portos).
Essa mulher centenária recebeu uma justa homenagem da Câmara Municipal de Santa Fé do Sul – o título de cidadã santa-fé-sulense - reconhecimento oficial do que ela sempre foi, cidadã ativa e testemunha ocular da bela história da cidade que escolheu pra viver e amar.