*Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Pessoas cuidam de pessoas e isso é trabalho. Talvez essa seja uma das frases mais importantes para começarmos a falar sobre a chamada economia do cuidado. Cuidar é preparar uma refeição, lavar uma roupa, acompanhar uma criança, dar banho em uma pessoa idosa, levar alguém a uma consulta, ouvir, acolher, proteger. Algumas dessas tarefas acontecem diretamente entre as pessoas de forma a garantir condições necessárias para que a vida aconteça. São trabalhos essenciais, embora muitas vezes permaneçam invisíveis. Durante muito tempo, o cuidado foi tratado como uma responsabilidade privada, restrita ao interior das famílias e, principalmente, atribuída às mulheres. Essa naturalização produz uma desigualdade silenciosa, pois enquanto o trabalho remunerado costuma ser reconhecido como atividade econômica, o cuidado não remunerado frequentemente aparece apenas como obrigação familiar. Segundo dados do IBGE, em 2022, as mulheres brasileiras dedicavam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens às tarefas de cuidados e afazeres domésticos. Essa sobrecarga interfere na participação das mulheres no mercado de trabalho, na formação profissional, no descanso e no tempo destinado à própria vida. E aqui está uma contradição, o cuidado sustenta a economia, mas não é reconhecido como parte dela. Quem cuida das crianças permite que outras pessoas trabalhem. Quem acompanha uma pessoa idosa ou alguém com deficiência possibilita que a família mantenha sua rotina. Quem prepara a alimentação, limpa a casa e organiza a vida cotidiana cria as condições para que a sociedade continue funcionando. Por isso, falar em economia do cuidado é reconhecer que cuidar é uma questão social. Em 2024, o Brasil deu um passo importante ao instituir, por meio da Lei nº 15.069, a Política Nacional de Cuidados, cuja proposta parte de uma ideia fundamental que o cuidado precisa ser compartilhado entre Estado, famílias, comunidade e setor privado, com políticas públicas capazes de ampliar serviços e reduzir as desigualdades. Mas como transformar essa ideia em realidade? O desafio brasileiro é enorme, nossa população está envelhecendo, as famílias estão mudando e as mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho, ao mesmo tempo, continuam sendo as principais responsáveis pelo cuidado dentro de casa. A conta não fecha e isso exige planejamento, serviços públicos e uma rede de proteção capaz de responder às diferentes necessidades ao longo da vida. Como a sociedade vai organizar o cuidado? Coletivizar o cuidado não significa retirar das famílias a responsabilidade, mas impedir que o cuidado recaia exclusivamente sobre uma pessoa. Cuidar é uma das experiências mais humanas que existem, mas, para que seja também uma responsabilidade socialmente compartilhada, precisamos transformá-lo em política pública, investimento, serviço, proteção e direito. No fim das contas, todos nós, em algum momento da vida, cuidaremos de alguém e todos nós, em algum momento, precisaremos ser cuidados.