Os instrumentos de organização social em nossa sociedade foram destruídos nos últimos tempos, de forma a tornar penosa a reconstrução de nossos saudáveis relacionamentos humanos e, principalmente, efetivamente democráticos.
Depois de viver sob o manto da denominada ditadura militar e acessar os bancos acadêmicos de uma das maiores instituições públicas de ensino superior do Brasil, passei a conviver com a absoluta necessidade de construir e fundamentar meus posicionamentos nos momentos de debate no seio do ambiente de formação profissional. Presenciamos, digamos, a construção de nossa democracia e a retomada do processo eleitoral para a escolha dos líderes da nação.
Com o passar do tempo, passamos a observar a obsessiva atuação de membros da “comunidade acadêmica” em busca da supremacia de seus ideais. Presenciamos, infelizmente, agressões de toda ordem que, lamentavelmente, chegaram à agressão física.
A partir de determinado momento, deixamos o “bom debate” para caminhar, fortemente, para o “embate” — confronto direto marcado por resistência e ataques pessoais. Passamos a conviver com a tentativa de desvalorização do outro, de todas as formas. Passamos a compreender o que significava a afirmação: “os fins justificam os meios”, especialmente quando se trata de atingir o poder.
Em um encontro com profissionais investidos de poder, há um bom tempo, ao questioná-los sobre o encaminhamento de verbas para determinado município, ouvi: “Se nomearem um companheiro nosso como secretário, encaminharemos recursos”. Chamavam essa atitude de “política”. Os mesmos interlocutores que defendiam a necessidade do estabelecimento de políticas públicas para atender aos mais carentes.
Aprendi que os mais carentes permaneceriam carentes se não houvesse um companheiro do partido próximo a eles.
Neste momento histórico, todos nós assistimos como se fazem as leis, normas e regulamentos para a sociedade. Criam-se mecanismos de toda ordem — truculentos e absurdos — para cercear a fala dos que não concordam com os argumentos que buscam defender o indefensável. A política pública do “cala a boca” é estabelecida em prol de parcela da sociedade ou daqueles que podem pagar por decisões favoráveis aos seus intentos.
As normas, leis, regulamentos e conceitos tornaram-se mercadorias que podem ser moduladas de acordo com os interesses de alguns. E o “cala a boca” atua firmemente para impedir que as pessoas tenham liberdade de expressão e de escolha.
Voltamos ao momento da censura. No tempo de minha juventude, deram-lhe o nome de ditadura. E agora, qual nome daremos? Garantias da democracia de apenas alguns?