Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Há uma diferença enorme entre saber muitas coisas e ser verdadeiramente sábio. Podemos acumular diplomas, títulos, livros lidos, experiências profissionais e respostas prontas. Podemos conhecer teorias, dominar assuntos e até nos tornar referência em determinada área, mas existe uma sabedoria mais profunda, aquela que nasce quando reconhecemos os limites do nosso próprio conhecimento. A sabedoria inferior pode ser medida pelo quanto uma pessoa sabe e a sabedoria superior, é percebida pela consciência que ela tem daquilo que ainda não sabe. Os verdadeiros sábios parecem carregar justamente a certeza de que quanto mais aprendem, mais percebem o tamanho do universo que ainda desconhecem. Por isso, desconfiem das certezas absolutas, daquelas pessoas que acreditam não ter mais nada a aprender com o outro. A sabedoria verdadeira não precisa humilhar quem sabe menos nem condenar quem pensa diferente porque ela sabe que somos seres em construção e não acabados. Por esta razão que a sabedoria superior tolera a inferior, procura reconhecimento e a superior procura consciência. Uma se satisfaz com títulos e a outra sabe que, diante dos grandes mistérios da existência, ninguém recebe diploma definitivo. Somos todos eternos aprendizes. Falamos muito sobre Deus, construímos religiões, filosofias, teorias e milhares de interpretações na tentativa de compreender o Criador e o sentido da existência. Escrevemos livros, fazemos perguntas e atravessamos gerações procurando respostas e, ainda assim, Deus continua sendo um grande mistério porque o infinito não possa ser completamente compreendido por uma inteligência finita como a nossa. Por enquanto, é só o que podemos compreender. E existem perguntas que não foram feitas para serem respondidas imediatamente, mas para nos transformar enquanto buscamos suas respostas. E é nesse ponto que surge uma das figuras mais fascinantes da história que é Jesus. Independentemente da fé de cada pessoa, há algo em sua trajetória que provoca reflexão. Jesus apresentou comportamentos que desafiam a lógica da violência, do orgulho e da vingança, ensinou a amar os inimigos, falou sobre perdão, acolheu pessoas que eram rejeitadas e, diante da violência, não respondeu com a mesma violência, mas uma das cenas mais desconcertantes está justamente no momento da cruz quando poderia ter escolhido a vingança, escolheu o perdão, poderia ter respondido à agressão com agressão, mas ofereceu compreensão, poderia ter condenado aqueles que o feriam, mas pediu misericórdia para os mesmos. Isso nos confronta porque é muito mais fácil falar sobre amor do que praticá-lo quando somos feridos, fácil falar de paz quando ninguém nos provocou e é justamente isso que ainda nos desconcerta: diante de uma humanidade tão acostumada a medir força pela capacidade de vencer o outro, ele apresentou uma força diferente que é a capacidade de não se tornar aquilo que nos feriu. Isso exige uma sabedoria que não cabe em diploma. A vida é maior do que nossas explicações. Quanto nossa inteligência se transforma em consciência, diante da imensidão da existência, conseguimos humildemente reconhecer que ainda há muito a aprender.