Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
A contradição na sociedade contemporânea é que nunca produzimos tanto, nunca tivemos tantos recursos tecnológicos para facilitar tarefas e acelerar processos e, ainda assim, milhões de pessoas continuam sem tempo suficiente para descansar, conviver com a família, estudar ou simplesmente desfrutar da própria vida. Para muitos trabalhadores brasileiros, a semana parece resumir-se a uma sequência de obrigações como trabalhar, deslocar-se, alimentar-se, dormir e começar tudo novamente. Quando finalmente chega a folga, há uma casa para organizar, filhos para cuidar, roupas para lavar, contas para pagar e uma lista de tarefas que não coube nos outros dias. O descanso, que deveria ser parte natural da vida, transforma-se em um privilégio. É nesse cenário que a escala 6 por 1, seis dias de trabalho para um dia de descanso, precisa ser discutida. Afinal, a questão não se limita à organização das jornadas profissionais. Estamos falando de saúde, dignidade, desigualdade social e, principalmente, do direito de viver. Trabalhar é necessário, mas viver também. Com isso, o tempo deixa de nos pertencer. A jornada de trabalho no Brasil é resultado de uma longa história de lutas sociais. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu o limite de 44 horas semanais para a jornada normal, admitindo compensação de horários e redução da jornada mediante negociação, conforme as regras legais. Essa conquista representou um avanço importante. Entretanto, o limite legal não significa que todos os trabalhadores tenham jornadas equilibradas ou condições adequadas de descanso. A escala 6 por 1 evidencia essa tensão e, embora possa atender às necessidades de funcionamento de determinados setores, sua aplicação pode impor dificuldades significativas, especialmente quando os horários são extensos, os deslocamentos são demorados e a remuneração não permite contratar serviços que aliviem as responsabilidades domésticas. Para quem recebe baixos salários, o tempo também se torna uma questão econômica. Muitas vezes, não é possível pagar alguém para cuidar dos filhos, preparar refeições ou realizar tarefas domésticas. Assim, o trabalho remunerado termina, mas o trabalho necessário à sobrevivência continua dentro de casa. E quem paga essa conta, na maioria das vezes, são as próprias pessoas trabalhadoras, com seu tempo, sua disposição e sua saúde. A desigualdade também se mede em horas e o debate sobre a jornada de trabalho não pode ignorar as desigualdades de gênero e raça. As mulheres, especialmente em situação de maior vulnerabilidade econômica, enfrentam com frequência a sobreposição entre o trabalho remunerado e as responsabilidades domésticas e de cuidado. Depois de uma jornada profissional, muitas ainda assumem a preparação das refeições, a limpeza da casa, o acompanhamento escolar dos filhos e o cuidado com pessoas idosas, doentes ou com deficiência. É uma segunda jornada que nem sempre aparece nos registros de ponto, não gera remuneração e raramente recebe o reconhecimento que merece. A pergunta, portanto, não é apenas quantas horas uma pessoa trabalha fora de casa. É também quantas horas lhe restam para si mesma depois de cumprir todas as suas responsabilidades. Quando o tempo livre é distribuído de maneira desigual, a desigualdade ultrapassa a renda e alcança as oportunidades de estudar, descansar, participar da vida comunitária, desenvolver interesses pessoais, cuidar da família e construir relações afetivas. A desigualdade também se manifesta na quantidade de tempo que cada pessoa tem para viver. O excesso de trabalho e a falta de recuperação adequada podem contribuir para o esgotamento físico e emocional, prejudicar o sono e aumentar os riscos de acidentes, especialmente em atividades que exigem atenção contínua, esforço físico ou operação de máquinas. Não é possível atribuir todos os problemas de saúde mental ou todos os acidentes de trabalho exclusivamente à jornada. O adoecimento também produz consequências coletivas, afeta as famílias, sobrecarrega os serviços de saúde e pode gerar afastamentos, rotatividade de pessoal e custos para as empresas e para a sociedade. O trabalhador não é uma máquina que pode funcionar indefinidamente, desde que receba combustível suficiente, mas é uma pessoa que precisa de pausas, vínculos, segurança, reconhecimento e condições dignas de existência. E existe algo ainda mais preocupante que é quando o cansaço se torna permanente, corremos o risco de naturalizar a exaustão e passamos a considerar normal não ter tempo para os filhos, adiar consultas, abandonar os estudos, cancelar encontros e chegar ao fim da semana sem energia para fazer aquilo de que gostamos. A vida vai sendo reduzida ao cumprimento de obrigações. Mas será que trabalhar para viver não deveria ser diferente de viver apenas para trabalhar?