Essa acusação foi feita pela Repu, que foi criada por um grupo de professores e pesquisadores de universidades públicas e do Instituto Federal do estado de São Paulo
O estudo em questão utilizou microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 do provão Paulista Foto: Seduc
Da redação
Uma acusação de fraude no Provão Paulista, programa de vestibular criado por Tarcísio de Freitas (Republicanos) para ingresso em universidades estaduais de São Paulo, está sendo acusado de fraude sistêmica, principalmente em sua edição de 2025. Essa acusação foi feita pela Repu (Rede Escola Pública e Universidade).
De acordo com uma nota técnica divulgada pelo instituto, que foi criado por um grupo de professores e pesquisadores de universidades públicas e do Instituto Federal do estado de São Paulo, o vestibular apresentou “indícios consistentes e contundentes da ocorrência de fraude sistêmica.” O estudo em questão foi realizado usando como base os microdados das edições de 2023, 2024 e 2025, comparados com dados sobre bonificações pagas a profissionais da rede estadual, sobre estudantes convocados/as para ingresso nas instituições públicas de Ensino Superior paulistas nos mesmos anos, além de notícias e reportagens sobre vazamentos de questões e temas de redação do Provão.
Para justificar como chegaram à conclusão de fraude sistêmica, os professores encarregados do estudo explicam que, por meio dos dados analisados, foram identificados 4.305 resultados atípicos no vestibular. Desses, metade estava concentrada em apenas 50 escolas, correspondentes a 1,4% das escolas estaduais participantes. “Em 44 escolas estaduais, mais de 40% dos/as estudantes apresentaram desempenhos atípicos em 2025, chegando a mais de 90% em alguns casos. Padrões semelhantes não foram encontrados nas ETECs, tampouco nas escolas municipais participantes”, afirmam.
A nota técnica também destaca que a concentração em poucas escolas do estado, a ocorrência em regiões diferentes e o grande aumento entre 2024 e o ano passado “afastam explicações baseadas em flutuações estatísticas ou em desempenhos individuais excepcionais. As análises sugerem que as condições de aplicação do Provão Paulista não foram homogêneas na rede estadual e que as irregularidades não podem ser reduzidas a episódios individuais.”
Outro ponto importante levantado é sobre o conflito de interesses gerado pelas excessivas finalidades definidas para o Provão Paulista. Segundo a Repu, ele funciona como processo seletivo para o Ensino Superior, instrumento de avaliação de escolas e critério para bonificações e medidas punitivas contra docentes e gestores/as escolares, sendo que a combinação dessas funções produziu conflitos de interesse e incentivou a inflação dos resultados. “Soma-se a isso uma política de plataformização que incorporou celulares e ferramentas digitais ao cotidiano escolar, ao mesmo tempo em que manteve a aplicação do Provão Paulista nas próprias escolas e sob a fiscalização de profissionais diretamente afetados pelos resultados da avaliação”, diz ainda o estudo.
Resposta da Seduc
Os dados apresentados no estudo não permitem sustentar a conclusão de ocorrência de fraude sistêmica no Provão Paulista nem de comprometimento do processo seletivo. Associar resultados estatisticamente atípicos à ocorrência de fraude, sem evidências individualizadas que estabeleçam essa relação, é uma correlação temerária e que extrapola o que os próprios dados permitem afirmar.
Inicialmente é preciso destacar que 4.305 resultados classificados pela Repu como atípicos não correspondem a 4.305 casos de fraude. Da mesma forma, não há base para associar esse número a 27,4% das vagas do Provão Paulista. Resultados atípicos e vagas oferecidas representam universos distintos, e estabelecer uma relação direta entre eles não demonstra que qualquer percentual das vagas tenha sido afetado por irregularidades.
A mesma cautela deve se aplicar aos 11,3% dos 14.271 estudantes convocados para matrícula em 2026 provenientes de escolas com proporção de resultados atípicos superior a 20%. A origem escolar desses estudantes não constitui evidência de fraude individual nem permite concluir que tenham obtido suas convocações de maneira irregular.
A Seduc-SP realizou análise complementar das escolas apontadas no estudo e cruzou os resultados com o Saeb, avaliação organizada pelo Inep e aplicada por equipe externa. Entre as 34 escolas com dados comparáveis, 22 apresentaram desempenho elevado e/ou evolução relevante em Matemática. Na EE Gavião Peixoto Conselheiro, por exemplo, 32 dos 35 estudantes tiveram resultados classificados como atípicos no Provão, enquanto os mesmos estudantes alcançaram 363,7 pontos em Matemática no Saeb de 2025, com evolução de 106,4 pontos desde 2023.
Esse cruzamento demonstra porque resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não podem ser tratados como evidência de fraude. Desempenhos elevados ou evoluções expressivas também aparecem em uma avaliação externa e independente do Provão. A metodologia estatística utilizada, portanto, não é capaz de distinguir, por si só, evolução de aprendizagem e preparação de eventual irregularidade.
Essa limitação é reconhecida pelo próprio estudo, que não identifica quais estudantes teriam eventualmente fraudado a prova, não determina como as supostas fraudes teriam ocorrido em cada escola e tampouco estabelece quantas vagas teriam sido efetivamente ocupadas em decorrência de resultados obtidos sob condições irregulares. Diante dessas limitações, não há sustentação nos dados apresentados para transformar indícios estatísticos em uma conclusão generalizada de fraude ou de comprometimento das vagas ofertadas.
A Seduc-SP não minimiza ocorrências anteriores de descumprimento das regras de aplicação. Em 2025, foram identificados seis casos pontuais de estudantes que ingressaram com celulares nas salas e fotografaram questões durante a realização do exame. Não houve acesso prévio ao conteúdo da prova nesses casos. As provas foram anuladas e as equipes escolares orientadas quanto ao cumprimento do regulamento do Provão.