Cleíde Semenzato (Foto: divulgação)
A história do bichinho na árvore costuma ser contada em diferentes versões e traz uma importante reflexão sobre problemas que crescem silenciosamente quando não são percebidos ou enfrentados. Havia uma árvore. Havia uma enorme, bonita e frondosa. Seus galhos ofereciam sombra, seus frutos alimentavam os animais e suas raízes eram fortes e profundas. Certo dia, um pequeno bichinho entrou por uma fresta no tronco. Era tão pequeno que ninguém se preocupou com ele. “Não é nada”, diziam. “A árvore é forte demais para ser afetada por um bichinho tão pequeno.” O tempo passou. O bichinho continuou seu trabalho silencioso, cavando túneis, corroendo a madeira por dentro. Por fora, a árvore continuava bonita. As folhas permaneciam verdes e os galhos aparentavam firmeza. Quem olhava de longe não percebia problema algum. Mas, internamente, a estrutura da árvore estava sendo enfraquecida dia após dia. Até que certa manhã veio uma tempestade. O vento não era o mais forte já visto, nem a chuva era a mais intensa. Porém, quando a árvore tentou resistir, já não possuía a força que aparentava ter. O tronco rachou e ela tombou. Os que viram a queda ficaram surpresos. Como uma árvore tão grande pôde cair? Então alguém observou o interior do tronco e percebeu que estava quase todo corroído. A árvore não caiu por causa da tempestade, apenas revelou um problema que vinha crescendo há muito tempo sem que ninguém lhe desse atenção. Os maiores problemas não começam grandes. Eles surgem pequenos: uma mentira tolerada, uma injustiça ignorada, uma corrupção aceitam, uma violência minimizada, uma relação negligenciada ou um valor abandonado. Quando não enfrentados, esses “bichinhos” crescem silenciosamente dentro das pessoas, das famílias, das instituições e até das sociedades. Por isso, é importante não esperar a tempestade chegar. A sabedoria está em perceber os pequenos sinais e cuidar da árvore enquanto ainda há tempo. Essa metáfora nos alerta sobre a perda da capacidade de indignação e normalização de situações erradas. O “bichinho” representa aquilo que parece pequeno no começo, mas que, quando ignorado, acaba comprometendo toda a estrutura. Nenhuma situação se enfraquece da noite para o dia. O desgaste começa quando nos acostumamos ao que deveria indigná-la. Quando os privilégios e as injustiças passam a ser vistos como parte natural da paisagem, corre-se o risco de perder não apenas a confiança nas instituições, nas pessoas, mas também a capacidade de as transformar. É justamente nesse terreno da indiferença que prosperam as tendências autoritárias que flertam com o autoritarismo, pavimentando o caminho para a irreversibilidade do declínio das famílias, das instituições e de toda uma sociedade. A verdadeira ameaça nem sempre está na tempestade que vemos chegar, mas nos sinais de desgaste que escolhemos ignorar. Por isso, preservar uma sociedade justa exige vigilância, participação e compromisso ético de todos. Havia uma árvore enorme, bonita e frondosa...