Cleide Semenzato é assistente social e educadora e dedica-se à escrita reflexiva sobre temas sociais, emocionais e humanos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Os professores são como cozinheiros que preparam cuidadosamente seus alimentos para uma plateia que, muitas vezes, parece estar sem apetite. Escolhem ingredientes, testam receitas, organizam os sabores e esperam que alguém experimente aquilo que foi preparado com dedicação. O conhecimento é oferecido e não encontra disposição para ser recebido. A metáfora nos provoca a pensar sobre uma realidade cada vez mais presente nas escolas, os conflitos em sala de aula, as dificuldades de aprendizagem, o desinteresse, as relações fragilizadas e o crescente desgaste emocional dos professores. Ensinar nunca foi uma tarefa simples. Exige conhecimento, planejamento, criatividade, paciência e, sobretudo, disponibilidade para lidar com pessoas. Entretanto, parece que, além de ensinar, o professor passou a precisar administrar conflitos, mediar relações, acolher sofrimentos, enfrentar situações de violência e responder a demandas que ultrapassam os limites da sua formação e de suas atribuições. O adoecimento docente não pode ser reduzido à falta de preparo emocional ou à dificuldade individual de lidar com os desafios da profissão. Estudos sobre saúde do trabalhador apontam a sobrecarga, as condições de trabalho e a violência no ambiente escolar entre os fatores associados ao sofrimento dos educadores. É preciso reconhecer que, quando um professor adoece, não é apenas um profissional que perde qualidade de vida, mas toda a comunidade escolar sente os efeitos, pois os vínculos se fragilizam e o processo de aprendizagem sofre prejuízos. Por isso, talvez seja necessário olhar também para a plateia. Quem são esses alunos que chegam à escola? Que histórias carregam? Que necessidades não conseguem expressar? Que lugar a família, a sociedade e as políticas públicas ocupam nessa construção? A escola não pode ser responsabilizada sozinha por todas as questões sociais, familiares e emocionais que atravessam a vida de crianças e adolescentes. Tampouco podemos esperar que o professor, individualmente, dê conta de todas elas. É nesse ponto que a atuação coletiva e interdisciplinar se torna indispensável para construir caminhos de diálogo, prevenção e corresponsabilidade. O problema não está apenas na receita, nem no cozinheiro, muito menos na plateia. Precisemos compreender por que tantos chegam à escola sem disposição para aprender e tantos professores já não encontram condições para ensinar com a tranquilidade que a profissão exige. Afinal, ensinar também é uma relação de encontro e nenhum encontro floresce quando uma das partes está permanentemente exausta. Não podemos naturalizar o sofrimento de quem educa, nem transformar o adoecimento docente em mais uma estatística. Valorizar o professor significa garantir condições dignas de trabalho, apoio institucional, equipes multiprofissionais, formação continuada e espaços de escuta. Antes de cobrar que o professor prepare uma boa refeição para o conhecimento, precisamos garantir que ele também tenha condições de permanecer à mesa.