A maré baixa, forma uma praia em alto mar Foto: Arquivo Pessoal
Por Igor Pedrini
Puxe o ar, expire. O oxigênio que atravessou seus pulmões pode ter sido sintetizado por uma alga em um recife de coral. Metade de todo o oxigênio do planeta é produzida nos oceanos. Talvez por isso uma das melhores maneiras de compreender a vida, a beleza da Terra e ainda se divertir com a criançada em Porto Seguro seja conhecer o Projeto Recife de Fora, uma iniciativa de turismo ecológico criada para proteger e apresentar um dos mais importantes parques marinhos do Brasil.
O passeio começa cedinho, em horário marcado pela maré, quando as águas baixam para formar um grande piscinão natural de mais de mil metros quadrados sobre os recifes. É nesse momento que o mar revela seus segredos: peixes coloridos, corais, ouriços, estrelas-do-mar e uma infinidade de organismos que transformam a área em uma verdadeira sala de aula a céu aberto. Durante cerca de uma hora e meia, os visitantes podem observar de perto a vida marinha de um dos maiores bancos de corais do Atlântico Sul.
O embarque acontece a partir das 7 horas da manhã, no Atracadouro Municipal, logo na entrada da Passarela do Descobrimento. Nessa hora da matina, as tradicionais barraquinhas dão lugar aos vendedores ambulantes de café e salgados. Acredite, são pequenas ilhas de salvação quando os cafés dos hotéis ainda não estão funcionando.
Vale registrar também o trabalho da Costa Bahia Turismo (@costabahiaturismo), empresa responsável pela organização do passeio. Desde o embarque até o retorno ao continente, a equipe demonstra uma combinação rara de profissionalismo e entusiasmo. Os guias transformam os cerca de 50 minutos de navegação em parte da experiência, compartilhando curiosidades sobre a região, conduzindo atividades de integração e mantendo o clima leve e descontraído. Mais importante do que animar o percurso, porém, é o cuidado permanente com a segurança dos passageiros, o controle das embarcações e a atenção dedicada a crianças, idosos e visitantes com diferentes níveis de experiência no mar, tornando o passeio agradável e seguro para toda a família.
Para embarcar na escuna, é necessário colocar uma pulseira de identificação, procedimento que garante segurança e ajuda no controle do número de visitantes autorizados a acessar a área de preservação. A limitação de público não é mero capricho: faz parte das medidas de conservação adotadas pelo projeto para reduzir impactos sobre o ecossistema recifal.
Aos enjoados de plantão, devo alertar: o passeio é relativamente tranquilo, com pouco balanço. Ainda assim, um antienjoo pode ser um aliado prudente. Durante a travessia, os guias credenciados apresentam informações sobre a formação dos recifes, a biodiversidade local e os cuidados necessários para preservar aquele ambiente delicado. Entre as orientações estão evitar pisar nos corais, não alimentar os peixes e não retirar qualquer elemento da natureza.
Enquanto a embarcação se distancia da orla, observamos as mesmas margens que maravilharam os portugueses vindos com Cabral, na conhecida narrativa sobre o descobrimento. Entre a faixa de praia e o horizonte, surgem fragmentos de Mata Atlântica costurados pela ocupação humana. São cerca de 50 minutos de navegação até o destino.
Ao final do trajeto, uma curiosa ilusão de ótica faz parecer que algumas pessoas caminham sobre as águas. Na verdade, a maré continua baixando e revela lentamente a extensão dos recifes. A chegada à pequena faixa de areia exige uma rápida travessia de bote, realizada sob a supervisão da equipe. A recomendação é deixar os pertences maiores na embarcação, inclusive celulares sem proteção adequada, embora capas impermeáveis possam ser adquiridas no local.
Daí em diante, o espetáculo pertence ao oceano. Pequenos cardumes cruzam as piscinas naturais em movimentos sincronizados, peixes coloridos surgem entre as formações rochosas e, com um pouco de atenção, é possível observar diferentes espécies convivendo naquele delicado ecossistema. Para as crianças, a sensação é a de estar dentro de um aquário gigante; para os adultos, um lembrete de que a natureza ainda é capaz de surpreender. Entre mergulhos, descobertas e contemplação, Recife de Fora oferece algo cada vez mais raro: a oportunidade de observar a vida marinha em seu habitat natural e sair dali com a certeza de que proteger os oceanos é proteger a nós mesmos.