Munícipes que sofrem problemas de saúde e precisam de atendimento médico na rede municipal afirmar que os médicos não estão dando atestados
Munícipes que foram ao Mini-hospital do Pozzobon e à UPA não conseguiram atestados Foto: A Cidade
Da redação
Vários votuporanguenses estão relatando ter dificuldades para conseguir atestados médicos na rede pública de saúde da cidade. Pessoas afirmam que médicos ignoram seus problemas e suas dores e passam apenas atestados de comparecimento. O assunto ressurge na cidade após meses da reunião “Protocolo Atestado Consciente” – depois desse encontro, o número de atestados caiu no município.
O jornal
A Cidade conversou com três munícipes sobre suas experiências no Mini-Hospital do Pozzobon e na UPA. Todos afirmaram que tiveram problemas para terem o atestado emitido, mesmo possuindo problemas graves.
Claudete Ferrarez, moradora do Pozzobon, contou à reportagem como seu filho teve que ser atendido no Mini-hospital, tomou medicação pesada e foi mandado de volta ao trabalho pelo médico. “Meu filho não estava passando bem, não me comunicou e foi direto ao pronto-socorro. O médico que o atendeu deu um diazepan a ele, o mandou esperar e falou que ele estava liberado depois. Isso foi na metade da tarde. Ele ficou sentado na calçada e o atestado só foi por horas”, relatou.
A mãe explica que ela reside próximo ao local e foi atender o filho após uma ligação dele. Quando ela chegou, seu filho já estaria “mole” por causa da medicação e preocupado com o trabalho. “Como que me solta um garoto que tomou diazepan para voltar sozinho pro trabalho?”, questiona Claudette.
Ela entrou no Mini-hospital, os funcionários a levaram para o médico que havia atendido seu filho e somente após uma conversa com ele que foi dado o atestado pelo resto do dia. Claudete ainda afirmou que eles voltaram para casa de ambulância, pois seu filho estava com dificuldades para andar.
Outro munícipe que teve problemas foi Óliver Oliveira, que é motorista de caminhão. Ele fala que possui um problema documentado nas costas e que gera dor constante nele. Porém, no final de setembro ele acordou com mais dor que o normal e que aumentou durante o trabalho. Por volta das 11h ele foi para a UPA e relata que, enquanto ainda estava na empresa, sua pressão bateu 15 por 10, marca considerada alta. “Aqui na UPA também estava alta, então das 8h30 até às 11h ela ficou bastante alta, e eu tomo medicamento para pressão”, informou.
Após ser medicado pela médica em questão, ele requisitou um atestado devido à forte dor que estava sentindo e pelo fato de ter que trabalhar dirigindo o dia todo. “Ela falou que não podia me dar [o atestado]. Que eu não tinha necessidade de atestado. A verdade é essa, ela falou claramente que eu não tinha necessidade de atestado”, contou.
Indignado, Óliver questionou a médica, perguntando se ela seria capaz de medir sua dor. “Você acha que eu vou levantar 4h30 da manhã, vou trabalhar, ligar pro meu supervisor, vou fingir que estou com dor, vou aumentar minha pressão eu mesmo, estou fingindo pra faltar serviço hoje. Levantei 4h30, fui trabalhar, mas estou fingindo, sou vagabundo. Na cabeça da médica é isso mesmo”, relatou.
Ele ainda pediu para a médica um documento que justificasse o fato de ela não fornecer o atestado. Ao final da consulta, ele fez um boletim de ocorrência e, segundo o que informou, enviou ao seu advogado para tomar as medidas possíveis. O motorista ainda afirmou faltar empatia aos médicos da cidade, explicando que “nem todos querem atestado para faltar trabalho. Aí é o bom senso, a empatia, a sensibilidade do médico. Agora todo mundo é vagabundo?”
Uma terceira pessoa, que pediu para não se identificar por medo de represálias, relatou problemas parecidos. Essa pessoa também tem problemas de coluna e foi atendida após estar em um dia particularmente ruim em questão de dores. Ela foi atendida no Mini-hospital e tomou medicação forte durante o atendimento. Ela informou que o medicamento para a dor “não tira a dor, ela amortece e depois você precisa de um repouso”, então ela precisaria de um atestado para conseguir melhorar.
Apesar disso, a médica negou o atestado e mandou-a voltar para a sala de medicação e tomar mais um medicamento. “Eu falei que o medicamento estava fazendo efeito, mas se eu não fizer repouso, não vai melhorar. Então a médica falou ‘eu não posso te dar atestado’. Ela falou exatamente assim”, explicou.
Cerco aos atestados
Na tarde do dia 20 de janeiro, no Parque da Cultura, foi realizada uma reunião em que a Secretaria Municipal da Saúde apresentou o “Protocolo Atestado Consciente”. O encontro contou com a participação da Associação Comercial de Votuporanga (ACV), da Associação Industrial da Região de Votuporanga (Airvo), do Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio), além de representantes da diretoria da Santa Casa de Votuporanga.
De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, o protocolo é um documento de caráter orientativo que tem como objetivo qualificar e padronizar a aplicação das normas já existentes para a emissão de atestados médicos e declarações de comparecimento na rede pública de saúde. Segundo a pasta, a proposta não cria novas regras nem restringe direitos dos trabalhadores, mas busca fortalecer a prática médica responsável, garantir critérios técnicos, éticos e transparência nos processos, além de promover alinhamento entre a saúde pública, os trabalhadores e o setor produtivo do município.